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A questão da dobragem de filmes estrangeiros, que não foi uma questão
meramente estética, de manutenção da versão original, provocou um menor
impacto da influência do cinema internacional. Até 1948 não houve legislação
sobre esta temática mas a tendência geral ia no sentido da legendagem. Houve
uma tentativa, em 1936, de dobrar "O Grande Nicolau", contando, entre
outras, com a voz de Vasco Santana. Só que, como explica Luís de Pina, "o
público não correspondeu e a distribuição desistiu".
Anos mais tarde, mesmo que o público e a indústria nacional o quisessem, já
não seria possível. A Lei 2027 de 1948, ainda com
António Ferro à frente do SNI, para além de criar o Fundo do Cinema
Nacional, vem proibir as dobragens. Desta forma, estipula-se que "não é
permitida a exibição de filmes de fundo estrangeiros dobrados em língua
portuguesa nem a importação de filmes de fundo estrangeiros falados em
língua portuguesa, excepto os realizados no Brasil".
Um ano depois a dobragem já era permitida quando houvesse co-produções em
que a vertente portuguesa tivesse relevo. O resultado foi uma menor difusão
dos filmes estrangeiros distribuídos em Portugal. Mesmo após a filtragem
realizada pela censura, estes estariam, à partida, excluídos do olhar de
milhões de analfabetos portugueses, impedidos de perceber as legendas. Em
1960, cerca de um terço da população residente não sabia ler. Eduardo Geada
aponta ainda o facto da legendagem ter conduziu a um sentimento de
estranheza produzido entre o público quando ouvia falar português nos poucos
filmes de produção nacional que eram exibidos, dificultando o sentimento de
empatia com estas obras.
Esta os exibidos, a legendagem tinha as suas vantagens, mesmo filtrada pela
censura. Lauro António explica que "na verdade, os filmes não eram
traduzidos à letra, mas suficientemente «nuanceada» a sua linguagem para
poderem ser exibidos". Palavras como comunismo ou colonialismo eram
substituídas por outras mais consensuais para o regime, tal como o eram
outras palavras ligadas a campos sensíveis, como o sexo. Só que, desta
forma, aqueles que conheciam as línguas originais do filme podiam facilmente
acompanhar as expressões originais.
Lauro António sublinha que este fenómeno não seria possível "caso se tivesse
institucionalizado a dobragem", o que, na sua opinião, só não sucedeu devido
às "deficientes condições técnicas do País", uma vez que "não existiam
laboratórios suficientes para permitir uma necessariamente rápida e
constante dobragem de cerca de quatrocentos filmes que anualmente eram
estreados em salas portuguesas".
Por diversas vezes as legendas eram cortadas pela censura, mantendo-se as
cenas, o que provocava o desagrado do público incapaz de perceber o que se
passava. Assim sendo, é notório que esta vertente da censura se destinava às
pessoas menos instruídas, que nesta altura era, de facto, o grosso da
população portuguesa.
Fontes:
ANTÓNIO, Lauro. "Cinema e censura em Portugal", Biblioteca Museu República e
Resistência, Lisboa, 2001
"Dicionário de História do Estado Novo", direcção de Fernando Rosas e J. M.
Brandão de Brito, Volume I, Círculo de Leitores, Lisboa, 1996.
GEADA, Eduardo. "O imperialismo e o fascismo no cinema", Moraes Editores,
Lisboa, 1977.
PINA, Luís de. "História do cinema português"
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