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Óscar Carmona e Oliveira Salazar; Exposição do Mundo Português, de António Lopes Ribeiro (Col. Cinemateca Potuguesa)
22-09-2003
O Cinema no Estado Novo
Leitura Obrigatória
 
A legendagem dos filmes, obrigatória, impediu que muita gente fosse ver filmes estrangeiros. Isso acabou por afectar os filmes portugueses e a frequência de espectadores às salas de cinema.
Óscar Carmona e Oliveira Salazar; "Exposição do Mundo Português", de António Lopes Ribeiro (Col. Cinemateca Potuguesa)  
 
 

A questão da dobragem de filmes estrangeiros, que não foi uma questão meramente estética, de manutenção da versão original, provocou um menor impacto da influência do cinema internacional. Até 1948 não houve legislação sobre esta temática mas a tendência geral ia no sentido da legendagem. Houve uma tentativa, em 1936, de dobrar "O Grande Nicolau", contando, entre outras, com a voz de Vasco Santana. Só que, como explica Luís de Pina, "o público não correspondeu e a distribuição desistiu".

Anos mais tarde, mesmo que o público e a indústria nacional o quisessem, já não seria possível. A Lei 2027 de 1948, ainda com António Ferro à frente do SNI, para além de criar o Fundo do Cinema Nacional, vem proibir as dobragens. Desta forma, estipula-se que "não é permitida a exibição de filmes de fundo estrangeiros dobrados em língua portuguesa nem a importação de filmes de fundo estrangeiros falados em língua portuguesa, excepto os realizados no Brasil".

Um ano depois a dobragem já era permitida quando houvesse co-produções em que a vertente portuguesa tivesse relevo. O resultado foi uma menor difusão dos filmes estrangeiros distribuídos em Portugal. Mesmo após a filtragem realizada pela censura, estes estariam, à partida, excluídos do olhar de milhões de analfabetos portugueses, impedidos de perceber as legendas. Em 1960, cerca de um terço da população residente não sabia ler. Eduardo Geada aponta ainda o facto da legendagem ter conduziu a um sentimento de estranheza produzido entre o público quando ouvia falar português nos poucos filmes de produção nacional que eram exibidos, dificultando o sentimento de empatia com estas obras.

Esta os exibidos, a legendagem tinha as suas vantagens, mesmo filtrada pela censura. Lauro António explica que "na verdade, os filmes não eram traduzidos à letra, mas suficientemente «nuanceada» a sua linguagem para poderem ser exibidos". Palavras como comunismo ou colonialismo eram substituídas por outras mais consensuais para o regime, tal como o eram outras palavras ligadas a campos sensíveis, como o sexo. Só que, desta forma, aqueles que conheciam as línguas originais do filme podiam facilmente acompanhar as expressões originais.

Lauro António sublinha que este fenómeno não seria possível "caso se tivesse institucionalizado a dobragem", o que, na sua opinião, só não sucedeu devido às "deficientes condições técnicas do País", uma vez que "não existiam laboratórios suficientes para permitir uma necessariamente rápida e constante dobragem de cerca de quatrocentos filmes que anualmente eram estreados em salas portuguesas".

Por diversas vezes as legendas eram cortadas pela censura, mantendo-se as cenas, o que provocava o desagrado do público incapaz de perceber o que se passava. Assim sendo, é notório que esta vertente da censura se destinava às pessoas menos instruídas, que nesta altura era, de facto, o grosso da população portuguesa.

Fontes:

ANTÓNIO, Lauro. "Cinema e censura em Portugal", Biblioteca Museu República e Resistência, Lisboa, 2001

"Dicionário de História do Estado Novo", direcção de Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, Volume I, Círculo de Leitores, Lisboa, 1996.

GEADA, Eduardo. "O imperialismo e o fascismo no cinema", Moraes Editores, Lisboa, 1977.

PINA, Luís de. "História do cinema português"

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