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As Sessões de Cinema Ambulante (Col. Cinemateca Portuguesa)
22-09-2003
O Cinema no Estado Novo
Mensagem Ambulante
 
O cinema é uma arma, e o Estado Novo quis usá-la por todo o país. Na década de 30, assustado com o perigo da República Espanhola, o Estado Novo mandou equipas de exibição percorrem Portugal de lés-a-lés, juntando filmes institucionais e comícios, numa jornada que havia de durar até aos anos 50.
As Sessões de Cinema Ambulante (Col. Cinemateca Portuguesa)  
 
 

O Cinema Ambulante, ou Cinema Popular Ambulante, foi uma das maiores criações do Secretariado Nacional de Propaganda (SNP), chefiado por António Ferro, nos anos trinta. Embora Luís de Pina refira que este foi criado em 1937, Heloísa Paulo, em "O Cinema sob o olhar de Salazar", já se refere a 1935. Esta parece ser esta a data mais correcta, sendo que 1937 é o ano em que se realizam as primeiras viagens ao interior do País.

Se a ideia era levar a arte do cinema às povoações que não tinham salas para este efeito, o certo é que o cinema ambulante foi, antes de mais, um instrumento de propaganda, uma vez que as exibições se cingiam ao documentários oficiais do regime. Heloísa Paulo refere que a primeira sessão decorreu "na sala do Sindicato dos Caixeiros de Lisboa, a 20 de Fevereiro daquele ano (1935), com a presença do director da Secção Cinematográfica do SPN, Félix Ribeiro, e de Guilherme de Vasconcelos, um advogado responsável pela palestra de abertura sobre as realizações do regime. O seu objectivo é divulgar a mensagem política do Estado Novo, através dos chamados «filmes de propaganda nacionalista»".

Assim, "levando o cinema até aos núcleos dos trabalhadores, numa tradução da ideia corporativista, o sistema acaba por favorecer a exibição de documentários fora das salas comerciais e o crescimento da produção «patrocinada» pelo Estado". O regime percebia e utilizava a força do cinema como instrumento, colocando-o ao seu serviço.

Quando surgiu o Cinema Ambulante, dois anos depois da criação do SPN, já este organismo produzira ou encomendara cerca de 50 filmes, prontos para serem exibidos em Portugal e no estrangeiro. Eram documentários sobre os feitos e figuras do Estado Novo, prontos a serem transportados até ao olhar dos portugueses. Através de carrinhas devidamente equipadas, o cinema era itinerante, parando para fazer exibições nocturnas em locais colectivos, como as Casas do Povo, sedes de sindicatos, salas da União Nacional ou em locais como jardins e campos de futebol.

Desta forma, o mensagem do regime chegava onde nunca tinha chegado, com toda a eficácia das imagens, mostrando os acontecimentos seleccionados pelo SPN, enaltecendo Salazar e o Estado Novo. Heloísa Paulo aponta que este projecto "evitou ao Governo de Salazar ter que construir salas de cinema para divulgar a sua propaganda". Apesar de ser o seu ponto principal, as sessões cinematográficas faziam parte de um programa mais extenso, que incluía palestras. Eram convidadas a discursar diversas figuras afectas ao regime, como membros da União Nacional, responsáveis locais das organizações corporativas ou até mesmo padres.

Reforçava-se assim a mensagem, com as personalidades locais conhecidas do público a sublinhar a força das imagens. Heloísa Paulo cita um texto do Diário da Manhã, afecto ao regime, onde se escreve, em Abril de 1937, que "as notícias publicadas em vários pontos do País dizem-nos alguma coisa do alvoroço que para todas as populações constitui a visita do Cinema Popular.

Durante algumas horas o povo evadiu-se das suas imagens habituais, emigrou do seu pequenino mundo para ver como o Estado Novo modificou não só a sua terra, mas o País de lés-a-lés, e comunicou às almas dos portugueses um novo entusiasmo criador(...) Um punhado de imagens comunica a todos os bons portugueses - o verdadeiro povo, em nome e à custa do qual, durante algum tempo, meia dúzia de aventureiros, de ideológicos e energúmenos falaram e viveram - o grande drama da nossa época, a luta entre tudo o que constitui o espírito da Nação e as ideias e paixões estrangeiradas que ameaçam subverter o País". Entre os inimigos, o comunismo era, desde o surgimento do Governo da Frente Popular em Espanha, o mais temido entre todos.

Com a revolta dos nacionalistas e o início da Guerra Civil Espanhola, Salazar depressa apoiou sem reservas a facção encabeçada por Franco. O cinema ambulante foi uma das armas utilizadas para enaltecer os falangistas e denegrir os "comunistas", juntando no mesmo saco republicanos, socialistas, anarquistas e comunistas.

A primeira grande viagem do cinema ambulante realizou-se no primeiro semestre de 1937, percorrendo o Norte e Centro de Portugal. Heloísa Paulo aponta que neste período se realizaram "127 sessões, onze das quais foram durante o dia, destinadas ao público infantil. Durante este primeiro périplo propagandístico, os camiões do SPN visitaram 74 povoações e pequenas aldeias, cujos habitantes não conheciam a existência do cinema".

Entre 1939 e 1956, segundo dados compilados por Jorge Ramos do Ó, o orçamento do SNP (que no final da segunda guerra passou a chamar-se Secretariado Nacional da Informação) teve uma curva ascendente, embora com algumas oscilações. Se em 1939 este era de 220 contos, em 1956 era já de 550 contos, mostrando a aposta continuada do regime neste forma de propaganda, mesmo depois de afastado o perigo comunista.

No final da Segunda Guerra Mundial, quando o Estado Novo se preparava para enfrentar as mudanças geo-políticas resultantes da vitória dos países aliados, democráticos, há diversos registos de um manifesto interesse pelo cinema ambulante por parte das autoridades locais de regiões como as ilhas dos Açores e Madeira.

Numa missiva enviada em Setembro de 1945 dos Açores para Lisboa, escreve num telegrama o chefe militar da ilha de Santa Maria: "Reputo maior oportunidade e mais salutares efeitos sob aspectos político cultural e de propaganda exibições esta ilha filmes portugueses mormente os relacionados ressurgimento nacional(...)Sugiro seguintes filmes: Viagens presidenciais Açores e Colónias, realizações Ministério Obras Públicas, inauguração Stadium (sic), parada militar ano findo, documentários folclóricos, vários filmes carácter regional como Ala Arriba e outros. (...) Permito-me insistir altas vantagens efectivação estas exibições reputando-as até indispensáveis e urgentes".

No mesmo mês, o governador do distrito da Horta, Açores, envia outro telegrama, onde, alega que as "dificuldades características próprias" do momento que se vivia "aconselham propaganda política local". Uma vez que todas as freguesias deste distrito nunca tinham visto cinema, pedia-se que o SPN intercedesse junto de Salazar para que o Cinema Ambulante ali fosse no "próximo vapor", com "filmes focando chefes Estado Novo, seus discursos e obras realizadas". Se este último pedido foi ou não atendido, não se sabe. Sabe-se, isso sim, que pelo menos o primeiro foi.

Num inventário do SNI, datado de Dezembro de 1945, anunciava-se que "a actuação dos Cinemas Ambulantes Motorizados" tinha resultado em 203 espectáculos, onze dos quais na ilha de Santa Maria nos meses de Novembro e Dezembro, sendo a única ilha contemplada. No continente, os 192 espectáculos realizados pelos dois cinemas ambulantes existentes tiveram lugar em outras tantas localidades de todos os distritos. Segundo o SNI, "fizeram a apresentação dos cinemas 103 oradores e assistiram aos espectáculos cerca de 412.250 pessoas".

Mesmo assim, em 1955, quando arrancou a Campanha Nacional de Educação de Adultos (CNEA), onde se utilizou o cinema em salas próprias ou ambulante para ajudar à alfabetização, é o próprio CNEA que refere que muitas das pessoas das localidades visitadas nunca tinham, ainda, visto cinema.

Fontes:

Arquivo Salazar/Torre do Tombo

"O cinema sob o olhar de Salazar", coordenação de Luís Reis Torgal, Temas e Debates, Lisboa, 2001.

Ó, Jorge Ramos do. "Os anos de Ferro", Editorial Estampa, Lisboa, 1999

PINA, Luís de. "História do cinema português", Publicações Europa-América, Mem Martins, 1986.

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índice

O Estado Novo e o Cinema

Censura: Ver para Cortar

Depoimentos sobre a Censura

O Secretariado da Imagem

Os Prémios SNI

A Visão de Ferro

O Ditador que Adorava o Cinema

A Criação de uma Realidade

Leitura Obrigatória

Uma Lei Sem Papel

 

 

 
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