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À semelhança dos regimes nacional-socialista e fascista de Hitler, Mussolini
e Francisco Franco, que o Estado Novo mimetizava através da máquina de
propaganda liderada por António
Ferro, o cinema foi desde logo considerado como um instrumento
fundamental de propagação do regime, uma forma de transmissão directa ao
povo dos conceitos e imagens sobre os quais assentavam os pilares da sua
ideologia .
Era a utilização da propaganda como forma de consagração no estrangeiro e
integração dentro do território nacional, formando os espíritos de acordo
com a visão dos seus líderes. É nesta linha que surge a grande obra de
referência de ficção cinematográfica ao serviço da propaganda salazarista, "
A Revolução de Maio". Encomendado e produzido pelo
Secretariado de Propaganda Nacional (SNP), foi realizado por António Lopes
Ribeiro. Este seria ainda, juntamente com António Ferro, o autor do
argumento, tendo ambos utilizado os pseudónimos de Jorge Afonso e Baltazar
Fernandes, respectivamente.
O filme, de 1937, mostra imagens do discurso de
Salazar em Braga filmadas um ano antes, no décimo aniversário da
instauração da Ditadura Nacional. Inspirado na escola soviética, que
conheceu em 1929, a combinação de ficção e documentário é o final, algo
épico, do filme, onde um comunista que se encontrava exilado volta a
Portugal e se converte ao regime. Isto depois de conhecer as suas obras e
uma bonita rapariga, perante o olhar paternalista da polícia secreta. O
enredo e as filmagens são, vistas hoje, quase inocentes na sua simplicidade,
o que resulta em alguma eficácia. O filme, não foi, no entanto, apesar da
publicidade e do próprio Salazar ter assistido à sua estreia (fenómeno
raro), um sucesso entre o público.
Luís Torgal escreve que "como nos outros países, a propaganda passava no
Estado Novo muito especialmente pelo canal mais «real» do documentário, que,
através da «informação», procurava engrandecer a obra de Salazar no domínio
das obras públicas, a «menina dos olhos» do regime, mas também do fomento
agrário e industrial, e divulgava os grande actos da vida cívica, política e
cultural, tais como visitas presidenciais, manifestações de apoio ao regime,
festas militares, comemorações, exposições, etc". É assim que se divulga as
imagens do regime através de criações como o
Cinema Ambulante, a partir logo dos anos 30, ou, mais tarde, nos anos 50,
com a Campanha Nacional de Educação para Adultos, que utilizou o cinema em
larga escala.
O SNI cumpria a sua missão, já que, como refere Jorge Campos do Ó, "o
aparelho propagandístico deveria socorrer-se, trabalhando sobre as várias
linguagens e técnicas em uso, de todas as formas utilizadas na produção dos
bens culturais". Neste caso, as imagens cinematográficas, os documentários,
eram vistos como algo totalmente real, indiscutível, nunca como um ponto de
vista pré-determinado.
Heloísa Paulo, em "O cinema sobre o olhar de Salazar" aponta que "com a
proliferação de documentários sobre o Estado Novo, uma nova geração pode
assimilar (...) algumas curtas-metragens de propaganda e identificá-las com
o regime, como é o caso, por exemplo, das cenas da Exposição do Mundo
Português, de 1940, ou ainda da própria figura de Salazar".
É nesta linha, que percorre um caminho entre as grandes obras, figuras e
paisagens de Portugal, continental e imperial, passando pelo carácter
meramente informativo, que se encaixam as "Actualidades" e o "Jornal
Português", sendo António Lopes Ribeiro o realizador mais activo ao serviço
da propaganda salazarista. O público, no entanto, também se irá fartar
destas imagens exibidas antes dos filmes, e em 1953 o "Jornal Português" é
substituído pelas "Imagens de Portugal" que, no entanto, não foge às
temáticas e estilos convencionais.
Havia um intercâmbio, sempre através do SNI, entre as colónias e o
Continente, sendo que se ia filmar às primeiras para exibir no segundo,
mostrando a sua "força civilizadora", e do segundo iam as suas imagens para
as primeiras. Imagens que Heloísa Paulo traça em quatro grandes linhas:
"transmissão de um painel de vida do País, do seu passado histórico e do sue
presente, onde a mensagem política aparece sob o pano de fundo da propaganda
turística", a "manutenção da imagem do regime", a "demonstração do apoio
popular ao Estado Novo e aos seus líderes", e "o Presidente do Conselho,
apesar da sua alegada despreocupação com a sua imagem pública".
Essa mesma imagem era transportada, quando necessário, para o estrangeiro, e
o cinema, como as participações em grandes eventos, como feiras
internacionais, era uma das formas mais eficazes. É assim que surge "Une
Revolution dans la Paix" (Uma Revolução pela Paz), documentário de Lopes
Ribeiro em 1949 para exibição em França, tentando aclarar a imagem de
Salazar, poucos anos depois da queda do eixo e vitória dos aliados,
democratas, e no ano em que a oposição tenta a sua sorte nas eleições,
claramente sem sucesso.
Apesar da fraca aposta na ficção como propaganda, esta não se cingiu à
"Revolução de Maio", destacando-se ainda "
O Feitiço do Império" (1940) e "
Chaimite" (1953). O primeiro, de António Lopes Ribeiro, conta a história
de um português, filho de pais radicados nos EUA, que não gosta de fado,
logo, de Portugal, querendo casar-se e viver naquele continente. Os seus
pais convencem-no a visitar Portugal e as colónias africanas, onde fica
deslumbrado e se apaixona pela filha de colonos de Angola. No segundo, de
Jorge Brum do Canto, exalta-se a conquista do interior de Moçambique, com a
vitória de Mouzinho de Albuquerque sobre as forças lideradas por Gungunhana.
Ambos retratam uma visão especial de África. Um numa fase em que os
beligerantes, fosse a Inglaterra ou a Alemanha, pretendiam partes do império
português, o outro numa fase em que o regime pretendia aumentar a emigração
para as colónias, por oposto a países como o Brasil.
Mais tarde, seriam as Forças Armadas a realizar muitos filmes documentais
sobre as guerras de independência das colónias. Outros filmes de ficção,
menos óbvios, também cumpriam o seu papel, como "
Camões", realizado por Leitão de Barros em 1946, e "
O Pátio das Cantigas", de Ribeirinho, realizado em plena II Guerra
Mundial (1943), e onde se vê um berço chamado de "Salazar", onde as crianças
estão seguras.
As comédias eram, apesar do desdém a que as votou António Ferro, um lugar
seguro para o regime. Como refere Armindo Baptista de Morais, em "O Estado
Novo, das origens ao fim da autarcia", "Em 1350 filmes rodados na Alemanha
Nazi, mais de 1200 foram comédias e musicais cujo teor ideológico ortodoxo
se aliava ao uso de grandes estrelas do gosto do público, enquanto na Itália
de Mussolini se tornavam populares as chamadas «comédias de telefone branco»
(cujo centro de acção eram interiores burgueses onde sempre existia um
telefone branco". De leve e a rir...".
Fontes:
COSTA, João Benard da. "Histórias do cinema", IN-CM, Lisboa, 1991
"Guia alfabético das comunicações de massas", direcção de Jean Cazeneuve,
Edições 70, Lisboa, s.d.
MATOS-CRUZ, José de. "O cais do olhar", Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 1999.
Ó, Jorge Ramos do. "Os anos de Ferro", Editorial Estampa, Lisboa, 1999
"O Estado Novo, das origens ao fim da autarcia 1926-1959", Volume II, AAVV,
Editorial Fragmentos, Lisboa, 1987
"O cinema sob o olhar de Salazar", coordenação de Luís Reis Torgal, Temas e
Debates, Lisboa, 2001.
PINA, Luís de. "História do cinema português", Publicações Europa-América,
Mem Martins, 1986
QUINTERO, Alejandro Pizarroso, "História da Propaganda", Planeta Editora,
Lisboa, 1993.
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