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SNP, Comícios Anti-Comunistas (Col. Cinemateca Portuguesa)
22-09-2003
O Cinema no Estado Novo
A Criação de uma Realidade
 
Como em muitos outros países, mesmo nos democráticos, o Estado Novo utilizou o cinema para passar a sua mensagem, fosse através da heroicidade dos filmes históricos ou pela dormência das cenas cómicas.
SNP, Comícios Anti-Comunistas (Col. Cinemateca Portuguesa)  
 
 

À semelhança dos regimes nacional-socialista e fascista de Hitler, Mussolini e Francisco Franco, que o Estado Novo mimetizava através da máquina de propaganda liderada por António Ferro, o cinema foi desde logo considerado como um instrumento fundamental de propagação do regime, uma forma de transmissão directa ao povo dos conceitos e imagens sobre os quais assentavam os pilares da sua ideologia .

Era a utilização da propaganda como forma de consagração no estrangeiro e integração dentro do território nacional, formando os espíritos de acordo com a visão dos seus líderes. É nesta linha que surge a grande obra de referência de ficção cinematográfica ao serviço da propaganda salazarista, " A Revolução de Maio". Encomendado e produzido pelo Secretariado de Propaganda Nacional (SNP), foi realizado por António Lopes Ribeiro. Este seria ainda, juntamente com António Ferro, o autor do argumento, tendo ambos utilizado os pseudónimos de Jorge Afonso e Baltazar Fernandes, respectivamente.

O filme, de 1937, mostra imagens do discurso de Salazar em Braga filmadas um ano antes, no décimo aniversário da instauração da Ditadura Nacional. Inspirado na escola soviética, que conheceu em 1929, a combinação de ficção e documentário é o final, algo épico, do filme, onde um comunista que se encontrava exilado volta a Portugal e se converte ao regime. Isto depois de conhecer as suas obras e uma bonita rapariga, perante o olhar paternalista da polícia secreta. O enredo e as filmagens são, vistas hoje, quase inocentes na sua simplicidade, o que resulta em alguma eficácia. O filme, não foi, no entanto, apesar da publicidade e do próprio Salazar ter assistido à sua estreia (fenómeno raro), um sucesso entre o público.

Luís Torgal escreve que "como nos outros países, a propaganda passava no Estado Novo muito especialmente pelo canal mais «real» do documentário, que, através da «informação», procurava engrandecer a obra de Salazar no domínio das obras públicas, a «menina dos olhos» do regime, mas também do fomento agrário e industrial, e divulgava os grande actos da vida cívica, política e cultural, tais como visitas presidenciais, manifestações de apoio ao regime, festas militares, comemorações, exposições, etc". É assim que se divulga as imagens do regime através de criações como o Cinema Ambulante, a partir logo dos anos 30, ou, mais tarde, nos anos 50, com a Campanha Nacional de Educação para Adultos, que utilizou o cinema em larga escala.

O SNI cumpria a sua missão, já que, como refere Jorge Campos do Ó, "o aparelho propagandístico deveria socorrer-se, trabalhando sobre as várias linguagens e técnicas em uso, de todas as formas utilizadas na produção dos bens culturais". Neste caso, as imagens cinematográficas, os documentários, eram vistos como algo totalmente real, indiscutível, nunca como um ponto de vista pré-determinado.

Heloísa Paulo, em "O cinema sobre o olhar de Salazar" aponta que "com a proliferação de documentários sobre o Estado Novo, uma nova geração pode assimilar (...) algumas curtas-metragens de propaganda e identificá-las com o regime, como é o caso, por exemplo, das cenas da Exposição do Mundo Português, de 1940, ou ainda da própria figura de Salazar".

É nesta linha, que percorre um caminho entre as grandes obras, figuras e paisagens de Portugal, continental e imperial, passando pelo carácter meramente informativo, que se encaixam as "Actualidades" e o "Jornal Português", sendo António Lopes Ribeiro o realizador mais activo ao serviço da propaganda salazarista. O público, no entanto, também se irá fartar destas imagens exibidas antes dos filmes, e em 1953 o "Jornal Português" é substituído pelas "Imagens de Portugal" que, no entanto, não foge às temáticas e estilos convencionais.

Havia um intercâmbio, sempre através do SNI, entre as colónias e o Continente, sendo que se ia filmar às primeiras para exibir no segundo, mostrando a sua "força civilizadora", e do segundo iam as suas imagens para as primeiras. Imagens que Heloísa Paulo traça em quatro grandes linhas: "transmissão de um painel de vida do País, do seu passado histórico e do sue presente, onde a mensagem política aparece sob o pano de fundo da propaganda turística", a "manutenção da imagem do regime", a "demonstração do apoio popular ao Estado Novo e aos seus líderes", e "o Presidente do Conselho, apesar da sua alegada despreocupação com a sua imagem pública".

Essa mesma imagem era transportada, quando necessário, para o estrangeiro, e o cinema, como as participações em grandes eventos, como feiras internacionais, era uma das formas mais eficazes. É assim que surge "Une Revolution dans la Paix" (Uma Revolução pela Paz), documentário de Lopes Ribeiro em 1949 para exibição em França, tentando aclarar a imagem de Salazar, poucos anos depois da queda do eixo e vitória dos aliados, democratas, e no ano em que a oposição tenta a sua sorte nas eleições, claramente sem sucesso.

Apesar da fraca aposta na ficção como propaganda, esta não se cingiu à "Revolução de Maio", destacando-se ainda " O Feitiço do Império" (1940) e " Chaimite" (1953). O primeiro, de António Lopes Ribeiro, conta a história de um português, filho de pais radicados nos EUA, que não gosta de fado, logo, de Portugal, querendo casar-se e viver naquele continente. Os seus pais convencem-no a visitar Portugal e as colónias africanas, onde fica deslumbrado e se apaixona pela filha de colonos de Angola. No segundo, de Jorge Brum do Canto, exalta-se a conquista do interior de Moçambique, com a vitória de Mouzinho de Albuquerque sobre as forças lideradas por Gungunhana. Ambos retratam uma visão especial de África. Um numa fase em que os beligerantes, fosse a Inglaterra ou a Alemanha, pretendiam partes do império português, o outro numa fase em que o regime pretendia aumentar a emigração para as colónias, por oposto a países como o Brasil.

Mais tarde, seriam as Forças Armadas a realizar muitos filmes documentais sobre as guerras de independência das colónias. Outros filmes de ficção, menos óbvios, também cumpriam o seu papel, como " Camões", realizado por Leitão de Barros em 1946, e " O Pátio das Cantigas", de Ribeirinho, realizado em plena II Guerra Mundial (1943), e onde se vê um berço chamado de "Salazar", onde as crianças estão seguras.

As comédias eram, apesar do desdém a que as votou António Ferro, um lugar seguro para o regime. Como refere Armindo Baptista de Morais, em "O Estado Novo, das origens ao fim da autarcia", "Em 1350 filmes rodados na Alemanha Nazi, mais de 1200 foram comédias e musicais cujo teor ideológico ortodoxo se aliava ao uso de grandes estrelas do gosto do público, enquanto na Itália de Mussolini se tornavam populares as chamadas «comédias de telefone branco» (cujo centro de acção eram interiores burgueses onde sempre existia um telefone branco". De leve e a rir...".

Fontes:

COSTA, João Benard da. "Histórias do cinema", IN-CM, Lisboa, 1991

"Guia alfabético das comunicações de massas", direcção de Jean Cazeneuve, Edições 70, Lisboa, s.d.

MATOS-CRUZ, José de. "O cais do olhar", Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 1999.

Ó, Jorge Ramos do. "Os anos de Ferro", Editorial Estampa, Lisboa, 1999

"O Estado Novo, das origens ao fim da autarcia 1926-1959", Volume II, AAVV, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1987

"O cinema sob o olhar de Salazar", coordenação de Luís Reis Torgal, Temas e Debates, Lisboa, 2001.

PINA, Luís de. "História do cinema português", Publicações Europa-América, Mem Martins, 1986

QUINTERO, Alejandro Pizarroso, "História da Propaganda", Planeta Editora, Lisboa, 1993.

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