notícias I especiais I crónicas I base de dados I festivais I roteiro
mais especiais
O Cinema Mudo Português
 
Cinema de Animação
O cinema de animação tem cerca de 80 anos de vida em Portugal, mas esta tem tido os seus altos e baixos. O «Pesadelo de António Maria» fixa o seu nascimento em 1923, tendo depois um percurso irregular, que apenas de desenvolve nos anos 60, com um forte pendor publicitário.
 
outros especiais ...
especiais

 

António de Oliveira Salazar
22-09-2003
O Cinema no Estado Novo
O Ditador que Adorava o Cinema
 
Salazar teve uma sala privada de cinema, mas pouco a utilizou. Parecia gostar de alguns filmes, mas nunca quis dar a impressão de ser alguém que tivesse prazeres. Longe de rejeitar a força das imagens, deixou a Ferro a missão de influenciar os portugueses com documentários que serviam de ficção ao regime.
"António de Oliveira Salazar"  
 
 

António de Oliveira Salazar nasceu em 1889, no Vimieiro, aldeia do concelho de Santa Comba Dão. Daqui levará os seus traços de homem rural, averso à industrialização, e aqui voltaria sempre que possível, até ao final da sua vida.

O seu pai, a quem foi buscar o nome de António Oliveira, era feitor agrícola dos proprietários mais ricos da região. Isso possibilitou a Salazar, varão, único homem de cinco filhos, a possibilidade de ter lições particulares. No entanto, o grande ascendente é a mãe, Maria do Resgate, a quem se diz ter pedido autorização para se entregar à governação do País.

O percurso dá-se depois com a entrada, finda a quarta classe, em 1900, no seminário diocesano de Viseu. Obtém depois a equivalência do liceu, com 19 valores, e marcha para o curso de Direito de Coimbra. Aqui liga-se à ala católica, anti-republicana, e torna-se amigo de personalidades como o padre Manuel Cerejeira, futuro cardeal. Aos 25 anos, em 1914, obtém o diploma com 19 valores, e prepara-se para dar aulas nesta instituição.

Simpatizante de Sidónio Pais, tem uma breve experiência pela República, sendo eleito para a Assembleia pelo Centro Católico em Abril de 1921. Em plena época conturbada, de assassinatos e intentonas, fica-lhe vincada a aversão pelo republicanismo e parlamentarismo como formas de dirigir o país, associando-os ao caos e ao clientelismo.

Após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, é convidado, tal como outros professores de Coimbra, a ocupar-se de uma pasta ministerial. A Salazar cabe-lhe, pela obra publicada e algumas intervenções, as Finanças. Cinco dias depois demite-se, no meio da confusão gerada entre as diversas forças do golpe, que se degladiam.

Em Maio de 1928 recebe a visita de Duarte Pacheco, futuro ministro das obras públicas do Estado Novo, que está mandatado de o convencer a voltar. Salazar só aceita mediante condições de força, que são aceites. Inicia então a sua ascensão, com poderes para vetar qualquer iniciativa dos outros ministérios. O trabalho que efectua na resolução das contas públicas torna-o conhecido da população e imprescindível para o Marechal Carmona, presidente da Ditadura e bastião das forças militares. Salazar depressa irá retirar espaço de manobra aos extremos políticos, usando muitas vezes a força, centrando-se num meio termo unificador, mais "patriótico" que político, que resultou na criação da União Nacional, único partido cuja existência era admitida.

Depois da votação da nova Constituição, em 1933, o já Presidente do Conselho torna-se o ditador de um regime autoritário. Graças a entidades como a Censura e a PIDE, manterá, com mais ou menos sobressaltos, Portugal sob o seu domínio, colocando o País no Guiness como tendo a ditadura mais longa do mundo. Tomando a oposição em geral, e o comunismo em particular, como um inimigo a abater, é nos anos anteriores à II Guerra e durante os anos desta que se dá o momento áureo do seu regime.

É apoiado por homens como António Ferro, que o ajudam a criar um imaginário de um país pobre mas honrado, de Minho a Timor, do extremo norte de Portugal Continental ao ponto mais longínquo do seu império. Caído de uma cadeira em 1968, no forte de S. João do Estoril, bate fortemente com a cabeça e é afastado do Poder sem que ninguém lho comunique. Substituído por Marcelo Caetano, morrerá, vítima de um hematoma subdural, em 1970.

Salazar convida António Ferro para liderar o Serviço de Propaganda Nacional logo em 1933, ano de formação deste organismo. O presidente do Conselho conhecera-o quando Ferro o entrevista por diversas vezes no início da década de trinta, para o Diário de Notícias. Estas seriam depois publicadas em livro e traduzidas, como cartão de visita dos conteúdos do Estado Novo. Numa dessas entrevistas, dir-lhe-á Salazar: "(É) impossível evitar-se hoje a formação de uma opinião pública, tão numerosos são os meios de comunicação: o livro, o jornal, a rapidez e sigilo da correspondência particular, a telefonia, o cinema. Simplesmente essa opinião pública pode viver abandonada a si própria ou ser convenientemente dirigida". Nesta justificação de controlo da sociedade, a sua visão é tudo menos positiva no que diz respeito às mudanças que se viviam então. O cinema era uma delas. "A causa da actual decadência da Arte e da Literatura parece ser estranha à acção do Estado e estar antes ligada à feição da vida de hoje.

As grandes obras constroem-se no silêncio, e a nossa época é barulhenta, terrivelmente indiscreta. Hoje não se erguem catedrais, constroem-se estádios. Não se fazem teatros, multiplicam-se os cinemas. Não se fazem obras, fazem-se livros. Não se procuram ideias, procuram-se imagens", sustenta. No seu célebre discurso de Braga, de 1936, ano do décimo aniversário da instauração da Ditadura Nacional, Salazar sintetiza bem a sua visão para Portugal: "Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do século, nós tentamos restituir o conforto das grandes certezas. Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o dever de trabalhar."

Este excerto está incluído no filme de António Lopes Ribeiro, " A Revolução de Maio", o qual estreou a 6 de Julho de 1937, no Tivoli, e contou com a presença do próprio Salazar. Se este dava a entender que o cinema era demasiado caro, nem por isso deixava de conhecer as vantagens da utilização das imagens para tornar a sua ideia de regime mais real. Usaria assim o cinema, pela mão de Ferro, controlando-o, visionando, censurando, e produzindo.

Neste último campo, pensando em termos de longas metragens de ficção, é escassa a produção nacional, tendo como destaques, para além da Revolução de Maio, "O Feitiço do Império ", também realizado por António Lopes Ribeiro, em 1940, e " Chaimite", de Jorge Brum do Canto, este já em 1953. A aposta de Salazar e Ferro na ficção, no entanto, nunca foi muito forte. A propaganda era mais eficaz pela via do documentário.

A respeito da relação pessoal de Salazar com o cinema, há um episódio interessante relatado por Christine Garnier, jornalista francesa que se tornou íntima do ditador: "António Ferro contou-me que tinha pedido a Salazar para que este assistisse uma noite, numa sessão privada, à passagem do filme português. No dia seguinte o presidente diz-lhe: «Gostei deste filme. Demasiado talvez, porque não pude dormir depois. Esta manhã não consegui trabalhar como habitualmente. Não está certo. Peço-lhe, pois, que não me leve a este género de distracções»".

Jacques Georgel, que cita esta passagem, relembra uma outra, de Salazar a T'Serstevens, também seu admirador. Queixa-se o Presidente do Conselho que não pode sair para se divertir, o que é deplorável, confidenciando: "Adoro o cinema". Segundo estas descrições, Salazar deixar de considerar o cinema como fazendo parte do "barulho" dos novos tempos, apreciando-o como arte, para além de a instrumentalizar.

Fernando Dacosta, jornalista e escritor que tem o ditador como um dos seus campos de trabalho preferidos, descreve o seguinte diálogo que teve com a eterna criada de Salazar,. D. Maria. "O senhor doutor gostou muito do filme Música no Coração. Até se comoveu...

- Foi vê-lo?, pergunto, surpreso, a D. Maria.

- Não. Eu é que o vi e lho contei, com todos os pormenores, como ele gosta de ouvir.

Apaixonado pelo cinema (chegou a ser, nos primeiros tempos de Lisboa, um espectador assíduo), Salazar afastou-se, no entanto, das salas escuras com o avolumar do trabalho, e da curiosidade do público" pela sua pessoa.

António Ferro lutava para que Salazar acompanhasse a produção cinematográfica nacional, e remodelou parte do Palácio Foz, criando ali um sala privada. Mas sem sucesso. Seria nessa sala que a Censura faria os seus visionamentos.

Tanto Garnier, como T'Serstevens e até Fernando Dacosta parecem pertencer ao grupo dos que vêem em Salazar o homem tímido, avesso a multidões, que nada faz que ocupe tempo de trabalho. Uma imagem que Salazar fazia passar, mostrando o Poder como um fardo do destino, inexorável, formatando o país durante quatro décadas à sua visão pessoal e autoritária do que deve ser um Estado.

Fontes:

COSTA, João Benard da. "Histórias do cinema", IN-CM, Lisboa, 1991.

DACOSTA, Fernando. "Máscaras de Salazar", Editorial Notícias, Lisboa, 1997.

"Dicionário do Estado Novo", vol. II, direcção de Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, Círculo de Leitores, Lisboa, 1996.

FERRO, António. "Salazar, o homem e a sua obra", Edições Fernando Pereira, Lisboa, 1982.

GEORGEL, Jacques. "O Salazarismo", Publicações D. Quixote, Lisboa, 1985.

"O cinema sob o olhar de Salazar", coordenação de Luís Reis Torgal, Temas e Debates, Lisboa, 2001.

SALAZAR, Oliveira. "Como se levanta um Estado", Mobilis in mobile, Lisboa, 1991.

fil_expomundoportugues_2 esp_sni_2 esp_antonioferro_1 esp_cinemaambulante_spn_1 esp_amaliapremio_sni_1 esp_comiciosanticomunistas_1 fil_aldeiadaroupabranca_1 fil_expomundoportugues_1 fil_sofiaeaeducacaosexual_1

 

 

 

índice

O Estado Novo e o Cinema

Censura: Ver para Cortar

Depoimentos sobre a Censura

O Secretariado da Imagem

Os Prémios SNI

A Visão de Ferro

A Criação de uma Realidade

Mensagem Ambulante

Leitura Obrigatória

Uma Lei Sem Papel

 

 

 
Associação para a Promoção do Cinema Português