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António de Oliveira Salazar nasceu em 1889, no Vimieiro, aldeia do concelho
de Santa Comba Dão. Daqui levará os seus traços de homem rural, averso à
industrialização, e aqui voltaria sempre que possível, até ao final da sua
vida.
O seu pai, a quem foi buscar o nome de António Oliveira, era feitor agrícola
dos proprietários mais ricos da região. Isso possibilitou a Salazar, varão,
único homem de cinco filhos, a possibilidade de ter lições particulares. No
entanto, o grande ascendente é a mãe, Maria do Resgate, a quem se diz ter
pedido autorização para se entregar à governação do País.
O percurso dá-se depois com a entrada, finda a quarta classe, em 1900, no
seminário diocesano de Viseu. Obtém depois a equivalência do liceu, com 19
valores, e marcha para o curso de Direito de Coimbra. Aqui liga-se à ala
católica, anti-republicana, e torna-se amigo de personalidades como o padre
Manuel Cerejeira, futuro cardeal. Aos 25 anos, em 1914, obtém o diploma com
19 valores, e prepara-se para dar aulas nesta instituição.
Simpatizante de Sidónio Pais, tem uma breve experiência pela República,
sendo eleito para a Assembleia pelo Centro Católico em Abril de 1921. Em
plena época conturbada, de assassinatos e intentonas, fica-lhe vincada a
aversão pelo republicanismo e parlamentarismo como formas de dirigir o país,
associando-os ao caos e ao clientelismo.
Após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, é convidado, tal como outros
professores de Coimbra, a ocupar-se de uma pasta ministerial. A Salazar
cabe-lhe, pela obra publicada e algumas intervenções, as Finanças. Cinco
dias depois demite-se, no meio da confusão gerada entre as diversas forças
do golpe, que se degladiam.
Em Maio de 1928 recebe a visita de Duarte Pacheco, futuro ministro das obras
públicas do Estado Novo, que está mandatado de o convencer a voltar. Salazar
só aceita mediante condições de força, que são aceites. Inicia então a sua
ascensão, com poderes para vetar qualquer iniciativa dos outros ministérios.
O trabalho que efectua na resolução das contas públicas torna-o conhecido da
população e imprescindível para o Marechal Carmona, presidente da Ditadura e
bastião das forças militares. Salazar depressa irá retirar espaço de manobra
aos extremos políticos, usando muitas vezes a força, centrando-se num meio
termo unificador, mais "patriótico" que político, que resultou na criação da
União Nacional, único partido cuja existência era admitida.
Depois da votação da nova Constituição, em 1933, o já Presidente do Conselho
torna-se o ditador de um regime autoritário. Graças a entidades como a
Censura e a PIDE, manterá, com mais ou menos sobressaltos, Portugal sob o
seu domínio, colocando o País no Guiness como tendo a ditadura mais longa do
mundo. Tomando a oposição em geral, e o comunismo em particular, como um
inimigo a abater, é nos anos anteriores à II Guerra e durante os anos desta
que se dá o momento áureo do seu regime.
É apoiado por homens como
António Ferro, que o ajudam a criar um imaginário de um país pobre
mas honrado, de Minho a Timor, do extremo norte de Portugal Continental ao
ponto mais longínquo do seu império. Caído de uma cadeira em 1968, no forte
de S. João do Estoril, bate fortemente com a cabeça e é afastado do Poder
sem que ninguém lho comunique. Substituído por Marcelo Caetano, morrerá,
vítima de um hematoma subdural, em 1970.
Salazar convida António Ferro para liderar o
Serviço de Propaganda Nacional logo em 1933, ano de formação deste
organismo. O presidente do Conselho conhecera-o quando Ferro o entrevista
por diversas vezes no início da década de trinta, para o Diário de Notícias.
Estas seriam depois publicadas em livro e traduzidas, como cartão de visita
dos conteúdos do Estado Novo. Numa dessas entrevistas, dir-lhe-á Salazar:
"(É) impossível evitar-se hoje a formação de uma opinião pública, tão
numerosos são os meios de comunicação: o livro, o jornal, a rapidez e sigilo
da correspondência particular, a telefonia, o cinema. Simplesmente essa
opinião pública pode viver abandonada a si própria ou ser convenientemente
dirigida". Nesta justificação de controlo da sociedade, a sua visão é tudo
menos positiva no que diz respeito às mudanças que se viviam então. O cinema
era uma delas. "A causa da actual decadência da Arte e da Literatura parece
ser estranha à acção do Estado e estar antes ligada à feição da vida de hoje.
As grandes obras constroem-se no silêncio, e a nossa época é barulhenta,
terrivelmente indiscreta. Hoje não se erguem catedrais, constroem-se
estádios. Não se fazem teatros, multiplicam-se os cinemas. Não se fazem
obras, fazem-se livros. Não se procuram ideias, procuram-se imagens",
sustenta. No seu célebre discurso de Braga, de 1936, ano do décimo
aniversário da instauração da Ditadura Nacional, Salazar sintetiza bem a sua
visão para Portugal: "Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do
século, nós tentamos restituir o conforto das grandes certezas. Não
discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não
discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua
moral; não discutimos a glória do trabalho e o dever de trabalhar."
Este excerto está incluído no filme de António Lopes Ribeiro, "
A Revolução de Maio", o qual estreou a 6 de Julho de 1937, no
Tivoli, e contou com a presença do próprio Salazar. Se este dava a entender
que o cinema era demasiado caro, nem por isso deixava de conhecer as
vantagens da utilização das imagens para tornar a sua ideia de regime mais
real. Usaria assim o cinema, pela mão de Ferro, controlando-o, visionando,
censurando, e produzindo.
Neste último campo, pensando em termos de longas metragens de ficção, é
escassa a produção nacional, tendo como destaques, para além da Revolução de
Maio, "O Feitiço do Império
", também realizado por António Lopes Ribeiro, em 1940, e "
Chaimite", de Jorge Brum do Canto, este já em 1953. A aposta de Salazar e
Ferro na ficção, no entanto, nunca foi muito forte. A propaganda era mais
eficaz pela via do documentário.
A respeito da relação pessoal de Salazar com o cinema, há um episódio
interessante relatado por Christine Garnier, jornalista francesa que se
tornou íntima do ditador: "António Ferro contou-me que tinha pedido a
Salazar para que este assistisse uma noite, numa sessão privada, à passagem
do filme português. No dia seguinte o presidente diz-lhe: «Gostei deste
filme. Demasiado talvez, porque não pude dormir depois. Esta manhã não
consegui trabalhar como habitualmente. Não está certo. Peço-lhe, pois, que
não me leve a este género de distracções»".
Jacques Georgel, que cita esta passagem, relembra uma outra, de Salazar a
T'Serstevens, também seu admirador. Queixa-se o Presidente do Conselho que
não pode sair para se divertir, o que é deplorável, confidenciando: "Adoro o
cinema". Segundo estas descrições, Salazar deixar de considerar o cinema
como fazendo parte do "barulho" dos novos tempos, apreciando-o como arte,
para além de a instrumentalizar.
Fernando Dacosta, jornalista e escritor que tem o ditador como um dos seus
campos de trabalho preferidos, descreve o seguinte diálogo que teve com a
eterna criada de Salazar,. D. Maria. "O senhor doutor gostou muito do filme
Música no Coração. Até se comoveu...
- Foi vê-lo?, pergunto, surpreso, a D. Maria.
- Não. Eu é que o vi e lho contei, com todos os pormenores, como ele gosta
de ouvir.
Apaixonado pelo cinema (chegou a ser, nos primeiros tempos de Lisboa, um
espectador assíduo), Salazar afastou-se, no entanto, das salas escuras com o
avolumar do trabalho, e da curiosidade do público" pela sua pessoa.
António Ferro lutava para que Salazar acompanhasse a produção
cinematográfica nacional, e remodelou parte do Palácio Foz, criando ali um
sala privada. Mas sem sucesso. Seria nessa sala que a Censura faria os seus
visionamentos.
Tanto Garnier, como T'Serstevens e até Fernando Dacosta parecem pertencer ao
grupo dos que vêem em Salazar o homem tímido, avesso a multidões, que nada
faz que ocupe tempo de trabalho. Uma imagem que Salazar fazia passar,
mostrando o Poder como um fardo do destino, inexorável, formatando o país
durante quatro décadas à sua visão pessoal e autoritária do que deve ser um
Estado.
Fontes:
COSTA, João Benard da. "Histórias do cinema", IN-CM, Lisboa, 1991.
DACOSTA, Fernando. "Máscaras de Salazar", Editorial Notícias, Lisboa, 1997.
"Dicionário do Estado Novo", vol. II, direcção de Fernando Rosas e J. M.
Brandão de Brito, Círculo de Leitores, Lisboa, 1996.
FERRO, António. "Salazar, o homem e a sua obra", Edições Fernando Pereira,
Lisboa, 1982.
GEORGEL, Jacques. "O Salazarismo", Publicações D. Quixote, Lisboa, 1985.
"O cinema sob o olhar de Salazar", coordenação de Luís Reis Torgal, Temas e
Debates, Lisboa, 2001.
SALAZAR, Oliveira. "Como se levanta um Estado", Mobilis in mobile, Lisboa,
1991.
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