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António Ferro (Col. Cinemateca Portuguesa)
22-09-2003
O Cinema no Estado Novo
A Visão de Ferro
 
António Ferro marcou a cultura da primeira metade do século XX. Intelectual, ligado ao mundo artístico, ficou fascinado pelas promessas do Estado Novo, e a sua ligação ao nacionalismo.
António Ferro (Col. Cinemateca Portuguesa)  
 
 

Pai da estrutura que controlou todas as formas de comunicação do país, depressa percebeu a força e influência do cinema. Tentou fazer filmes à sua medida, mas quase sempre sem sucesso. Acabou por ser afastado em 1950 pelo próprio Salazar.

Nascido em Lisboa em 1895, António Ferro foi uma das figuras mais emblemáticas do Estado Novo, sendo o mentor da sua imagem até ao final dos anos 40. Desiste do curso de Direito para se dedicar ao jornalismo e às artes, sendo um adepto do modernismo. Editor do Orpheu em 1915, politiza-se, apoiando primeiro Sidónio Pais e defendendo depois a necessidade da intervenção do Estado como entidade dominante, através de uma figura carismática. Director da revista "Ilustração Portuguesa" em 1921, amante do jazz e do cinema, parte em viagem para os Estados Unidos, publicando em 1931 a obra "Hollywood, capital das imagens". Aqui fica fascinado pela produção de filmes e pela sua magia, ao mesmo tempo que o repele o liberalismo norte-americano.

Escreve António Ferro que "a nossa época tem meia dúzia de vibrações que a distinguem, mas que Portugal ainda não sentiu ou não quis sentir. Entre essas vibrações há duas maiores: a TSF e o cinema". Elogiando Leitão de Barros como "o primeiro realizador português com olhos do nosso tempo", acredita que Portugal tem todas as condições para ser "uma segunda edição de Hollywood". Pelas suas condições de luz, clima e cenários naturais. Um desejo que, aliás, perdura ciclicamente até hoje.

Defende então que, com o advento do cinema sonoro, estavam criadas as condições para que Portugal se popularizasse na sétima arte. "O cinema silencioso está na agonia. (...) Estamos em face, portanto, de uma vibração nova, da vibração simultânea da imagem e do som, da vibração do cinema sonoro. Vai Portugal cruzar os braços como fez com o cinema sonoro? Vai perder mais uma chance de afirmar a sua existência? Não creio". Depois de publicar em livro as entrevistas que realizara junto de diversos ditadores para o "Diário de Notícias", como Mussolini, prepara uma série de conversas com Salazar para o mesmo jornal. É a partir destes encontros que Oliveira Salazar o convida para chefiar o Secretariado Nacional de Propaganda, criado logo em 1933, e que dependia directamente do ditador.

António Ferro desenvolve assim a sua "política do espírito", encabeçando aquele que é considerado o organismo mais desenvolvido do Portugal dos anos trinta. Arranca com o Cinema Ambulante, desenvolve a produção própria de documentários e ficções, facilitada após a inauguração da Tóbis em 1932, e defende a criação de um Fundo do Cinema Nacional que verá sua luz apenas em 1948/9. Ferro conhece o poder das imagens. De tal forma assim é que aponta que "a sua magia, o seu poder de sedução, a sua força de penetração, são incalculáveis. Mais do que a leitura, mais do que a música, mais do que a linguagem radiofónica, a imagem penetra, insinua-se, quase sem dar por isso, na alma do homem(...) O espectador é um ser passivo, mais desarmado do que o leitor(...).

Os americanos compreenderam maravilhosamente esta força de penetração do cinema e foi, através dela, que conseguiram realizar a sua grande revolução no mundo". É através das artes que Ferro irá levar a mensagem do Estado Novo ao País e ao estrangeiro. Urbano, com uma visão muito mais alargada do seu presente do que Salazar, António Ferro exige, como refere Armindo Morais em "O Estado Novo, das origens ao fim da autarcia", "um cinema não somente «educativo» (no sentido de formativo para o fascismo) como também conglutinador e artístico, de um espírito nacional, personalizado, político e rácico".

É neste sentido que encomenda e produz o mais célebre filme de propaganda do Estado Novo, "A Revolução de Maio", de 1937, onde participa como co-argumentista, sob o pseudónimo de Jorge Afonso, ao lado de António Lopes Ribeiro, que além de co-argumentista é também o realizador. Da mesma forma, sempre enalteceu os filmes históricos, nacionalistas, com destaque para a mega-produção "Camões ", de Lopes Ribeiro e Leitão de Barros, por oposto às comédias ligeiras dos anos 30 e 40.

Num discurso de 1946, realizado durante a entrega dos prémios do agora Secretariado Nacional da Informação às produções de 1944 e 45, Ferro é peremptório. Faltam meios técnicos, rigor em detalhes como os décors, o vestuário, mas, acima de tudo, "não se deve cair evidentemente no «ora-vai-tu», no excesso da cantiguinha e do bailarico(....) O mau gosto das nossas plateias, que não é, muitas vezes, de raiz mas alimentado pelas soluções fáceis, é educável se houver mais alguma coisa nos produtores e exibidores do que a preocupação do seu interesse imediato e dos lucros apenas materiais".

Acutilante, Ferro apelida os filmes cómicos como "o cancro do cinema nacional", excepto dois ou três casos. Para este dirigente, é à literatura que se devem ir buscar os argumentos. Deve-se extrair filmes de romances ou obras teatrais, apostar mais nos documentários, nos filmes "poéticos", como chama a "Aniki-BóBó", de Manoel de Oliveira, e nos filmes históricos. Sublinha mesmo que estes últimos "marcam, sem dúvida, um dos caminhos seguros, sólidos, do cinema português(...) É um filme caro, nem sempre com fácil colocação fora de Portugal e que muitos consideram falso, artificial. Não importa !....Seja quais forem as considerações contra este género de cinema, não há dúvida que tem sido aquele em que os nossos realizadores e artistas melhor se têm movido".

Aqui há uma referência clara da preferência por filmes como " Bocage", "Inês de Castro " e, obviamente, Camões, todos eles de Leitão de Barros. A propaganda óbvia ficava para os documentários e eventos fora do cinema, sendo o papel dos filmes históricos educar, dar a consciência de nação, orgulhosa do seu passado único e rico como herança para o futuro.

É pouco tempo depois deste discurso e da força com que ainda apresenta a criação do Fundo do Cinema Nacional, que começa o fim do António Ferro e se inicia o marasmo do cinema português. Depois de ter congregado à sua volta diversas figuras do meio intelectual nos anos trinta, começa a ficar isolado, desgastado com os impasses, e atacado por diversas figuras do regime que não acompanhavam a sua visão do que devia ser o Estado Novo e o País. Numa altura em que começava a defender uma aposta em filmes que retratassem as pequenas histórias do quotidiano, num relance do neo-realismo, é afastado do seu cargo.

Em 1950 é-lhe atribuído o posto de ministro plenipotenciário em Berna. Tinha sido o grande obreiro das grandes encenações de massas do regime, desde as campanhas eleitorais aos eventos como a Exposição Histórica do Mundo Português, fabricado a imagem externa de Salazar, e chefiado a Emissora Nacional após 1941. Controlou o cinema, espectáculos, teatro, imprensa, rádio e a censura. É assim esvaziado de sentido para um cargo que nada tinha a ver consigo. Ainda seria transferido para Roma, onde aproveita para retomar a escrita, vindo a falecer em 1956.

Fontes:

FERRO, António, "Hollywood, capital das imagens", Edições Portugal-Brasil, Lisboa, 1931.

FERRO, António, "Teatro e Cinema", SNI, Lisboa, 1953.

"Dicionário de História do Estado Novo", direcção de Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, Volume I, Círculo de Leitores, Lisboa, 1996

"O cinema sob o olhar de Salazar", coordenação de Luís Reis Torgal, Temas e Debates, Lisboa, 2001.

"O Estado Novo, das origens ao fim da autarcia 1926-1959", Volume II, AAVV, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1987.

Ó, Jorge Ramos do. "Os anos de Ferro", Editorial Estampa, Lisboa, 1999.

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O Estado Novo e o Cinema

Censura: Ver para Cortar

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O Secretariado da Imagem

Os Prémios SNI

O Ditador que Adorava o Cinema

A Criação de uma Realidade

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