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Pai da estrutura que controlou todas as formas de comunicação do país,
depressa percebeu a força e influência do cinema. Tentou fazer filmes à sua
medida, mas quase sempre sem sucesso. Acabou por ser afastado em 1950 pelo
próprio Salazar.
Nascido em Lisboa em 1895, António Ferro foi uma das figuras mais
emblemáticas do Estado Novo, sendo o mentor da sua imagem até ao final dos
anos 40. Desiste do curso de Direito para se dedicar ao jornalismo e às
artes, sendo um adepto do modernismo. Editor do Orpheu em 1915, politiza-se,
apoiando primeiro Sidónio Pais e defendendo depois a necessidade da
intervenção do Estado como entidade dominante, através de uma figura
carismática. Director da revista "Ilustração Portuguesa" em 1921, amante do
jazz e do cinema, parte em viagem para os Estados Unidos, publicando em 1931
a obra "Hollywood, capital das imagens". Aqui fica fascinado pela produção
de filmes e pela sua magia, ao mesmo tempo que o repele o liberalismo
norte-americano.
Escreve António Ferro que "a nossa época tem meia dúzia de vibrações que a
distinguem, mas que Portugal ainda não sentiu ou não quis sentir. Entre
essas vibrações há duas maiores: a TSF e o cinema". Elogiando
Leitão de Barros como "o primeiro realizador português com olhos do
nosso tempo", acredita que Portugal tem todas as condições para ser "uma
segunda edição de Hollywood". Pelas suas condições de luz, clima e cenários
naturais. Um desejo que, aliás, perdura ciclicamente até hoje.
Defende então que, com o advento do cinema sonoro, estavam criadas as
condições para que Portugal se popularizasse na sétima arte. "O cinema
silencioso está na agonia. (...) Estamos em face, portanto, de uma vibração
nova, da vibração simultânea da imagem e do som, da vibração do cinema
sonoro. Vai Portugal cruzar os braços como fez com o cinema sonoro? Vai
perder mais uma chance de afirmar a sua existência? Não creio". Depois de
publicar em livro as entrevistas que realizara junto de diversos ditadores
para o "Diário de Notícias", como Mussolini, prepara uma série de conversas
com Salazar para o mesmo jornal. É a partir destes encontros que Oliveira
Salazar o convida para chefiar o
Secretariado Nacional de Propaganda, criado logo em 1933, e que dependia
directamente do ditador.
António Ferro desenvolve assim a sua "política do espírito", encabeçando
aquele que é considerado o organismo mais desenvolvido do Portugal dos anos
trinta. Arranca com o Cinema
Ambulante, desenvolve a produção própria de documentários e ficções,
facilitada após a inauguração da Tóbis em 1932, e defende a criação de um
Fundo do Cinema Nacional que verá sua luz apenas em 1948/9. Ferro conhece
o poder das imagens. De tal forma assim é que aponta que "a sua magia, o seu
poder de sedução, a sua força de penetração, são incalculáveis. Mais do que
a leitura, mais do que a música, mais do que a linguagem radiofónica, a
imagem penetra, insinua-se, quase sem dar por isso, na alma do homem(...) O
espectador é um ser passivo, mais desarmado do que o leitor(...).
Os americanos compreenderam maravilhosamente esta força de penetração do
cinema e foi, através dela, que conseguiram realizar a sua grande revolução
no mundo". É através das artes que Ferro irá levar a mensagem do Estado Novo
ao País e ao estrangeiro. Urbano, com uma visão muito mais alargada do seu
presente do que Salazar, António Ferro exige, como refere Armindo Morais em
"O Estado Novo, das origens ao fim da autarcia", "um cinema não somente
«educativo» (no sentido de formativo para o fascismo) como também
conglutinador e artístico, de um espírito nacional, personalizado, político
e rácico".
É neste sentido que encomenda e produz o mais célebre filme de propaganda do
Estado Novo, "A Revolução de
Maio", de 1937, onde participa como co-argumentista, sob o pseudónimo de
Jorge Afonso, ao lado de António Lopes
Ribeiro, que além de co-argumentista é também o realizador. Da mesma
forma, sempre enalteceu os filmes históricos, nacionalistas, com destaque
para a mega-produção "Camões
", de Lopes Ribeiro e Leitão de Barros, por oposto às comédias ligeiras dos
anos 30 e 40.
Num discurso de 1946, realizado durante a entrega dos prémios do agora
Secretariado Nacional da Informação às produções de 1944 e 45, Ferro é
peremptório. Faltam meios técnicos, rigor em detalhes como os décors, o
vestuário, mas, acima de tudo, "não se deve cair evidentemente no
«ora-vai-tu», no excesso da cantiguinha e do bailarico(....) O mau gosto das
nossas plateias, que não é, muitas vezes, de raiz mas alimentado pelas
soluções fáceis, é educável se houver mais alguma coisa nos produtores e
exibidores do que a preocupação do seu interesse imediato e dos lucros
apenas materiais".
Acutilante, Ferro apelida os filmes cómicos como "o cancro do cinema
nacional", excepto dois ou três casos. Para este dirigente, é à literatura
que se devem ir buscar os argumentos. Deve-se extrair filmes de romances ou
obras teatrais, apostar mais nos documentários, nos filmes "poéticos", como
chama a "Aniki-BóBó", de
Manoel de Oliveira, e nos filmes históricos. Sublinha mesmo que estes
últimos "marcam, sem dúvida, um dos caminhos seguros, sólidos, do cinema
português(...) É um filme caro, nem sempre com fácil colocação fora de
Portugal e que muitos consideram falso, artificial. Não importa !....Seja
quais forem as considerações contra este género de cinema, não há dúvida que
tem sido aquele em que os nossos realizadores e artistas melhor se têm
movido".
Aqui há uma referência clara da preferência por filmes como "
Bocage", "Inês de Castro
" e, obviamente, Camões, todos eles de Leitão de Barros. A propaganda óbvia
ficava para os documentários e eventos fora do cinema, sendo o papel dos
filmes históricos educar, dar a consciência de nação, orgulhosa do seu
passado único e rico como herança para o futuro.
É pouco tempo depois deste discurso e da força com que ainda apresenta a
criação do Fundo do Cinema Nacional, que começa o fim do António Ferro e se
inicia o marasmo do cinema português. Depois de ter congregado à sua volta
diversas figuras do meio intelectual nos anos trinta, começa a ficar
isolado, desgastado com os impasses, e atacado por diversas figuras do
regime que não acompanhavam a sua visão do que devia ser o Estado Novo e o
País. Numa altura em que começava a defender uma aposta em filmes que
retratassem as pequenas histórias do quotidiano, num relance do
neo-realismo, é afastado do seu cargo.
Em 1950 é-lhe atribuído o posto de ministro plenipotenciário em Berna. Tinha
sido o grande obreiro das grandes encenações de massas do regime, desde as
campanhas eleitorais aos eventos como a Exposição Histórica do Mundo
Português, fabricado a imagem externa de Salazar, e chefiado a Emissora
Nacional após 1941. Controlou o cinema, espectáculos, teatro, imprensa,
rádio e a censura. É assim esvaziado de sentido para um cargo que nada tinha
a ver consigo. Ainda seria transferido para Roma, onde aproveita para
retomar a escrita, vindo a falecer em 1956.
Fontes:
FERRO, António, "Hollywood, capital das imagens", Edições Portugal-Brasil,
Lisboa, 1931.
FERRO, António, "Teatro e Cinema", SNI, Lisboa, 1953.
"Dicionário de História do Estado Novo", direcção de Fernando Rosas e J. M.
Brandão de Brito, Volume I, Círculo de Leitores, Lisboa, 1996
"O cinema sob o olhar de Salazar", coordenação de Luís Reis Torgal, Temas e
Debates, Lisboa, 2001.
"O Estado Novo, das origens ao fim da autarcia 1926-1959", Volume II, AAVV,
Editorial Fragmentos, Lisboa, 1987.
Ó, Jorge Ramos do. "Os anos de Ferro", Editorial Estampa, Lisboa, 1999.
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