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O certo é que foi uma das características mais vincadas e negativas do
Estado Novo, formatando todo um povo com a visão de imagens criteriosamente
seleccionadas. À sua volta existiam mecanismos que criaram algo ainda mais
profundo, a auto-censura.
A Censura, embora não fosse um dado novo em Portugal, ganha uma
sofisticação, até então inexistente, com
Salazar. Torna-se permanente, solidificando-se como organismo legal ao
serviço do Estado Novo. Os braços da Censura chegavam a todas as formas de
informação e criação, diminuindo-as ou aniquilando-as. Os livros, imprensa,
rádio, espectáculos, artes plásticas, música, ensino, cinema e, mais tarde,
a televisão, estavam sob o olhar dos censores e a ameaça da polícia secreta.
No que respeita ao cinema, Lauro António esclarece que "a primeira indicação
da existência em Portugal de uma censura cinematográfica data de 1919".
Referindo-se a um decreto de 1917, a Secretaria da Guerra informa que a fita
"Os Últimos Acontecimentos No Norte do País", cujo tema era as tentativas de
restauração da monarquia, estava autorizada a ser exibida em todo o País.
Ainda nos anos finais da Primeira República surgem dois decretos, um em 1925
e outro no início de 1926, que proíbem e regulam a legislação sobre filmes
contra a moral. Já na Ditadura Militar, ainda antes da ascensão de Salazar,
é publicado o decreto-lei 13564, de Maio de 1927, que influenciará a forma
de visionamento dos filmes pela Censura do Estado Novo. Esta lei, onde se
incluí a referência à metragem mínima de
100 metros , obrigava à inscrição dos tradutores, importadores e
produtores de películas cinematográficas, bem como a comunicação dos novos
filmes e locais de estreia.
Como aponta Lauro António, "a actividade da censura não é anterior à estreia
do filme, mas sim posterior, deixando-se ao arbítrio dos empresários o seu
cumprimento". Arbítrio condicionado pelos assuntos interditos pela Ditadura.
Estes diziam respeito a "fitas perniciosas para a educação do povo, de
incitamento ao crime, atentatórias da moral e do regime político e social
vigorantes". Da mesma forma, eram censuráveis todas as cenas que mostrassem
maus tratos a mulheres, torturas a homens e animais, personagens nuas,
bailes lascivos, operações cirúrgicas, execuções capitais, casas de
prostituição e assassínios. Bem como episódios de roubo com arrombamento ou
violação de domicílio, sempre que estes fossem passíveis de transmitir os
modos de actuação. Estas matérias ficavam sob a alçada da Inspecção Geral
dos Teatros (IGT), subordinada ao Ministério da Instrução Pública.
Em 1929, a IGT passa a depender do Ministério do Interior a quem cabe a
"censura de obras teatrais, fitas cinematográficas e tudo o mais que for
conducente à eficiência da fiscalização dos espectáculos". Dez anos mais
tarde estes serviços são reorganizados e, em 1944, passam a fazer parte do
Serviço Nacional de Informação (SNI), ex-Secretariado de
Propaganda Nacional, chefiados por
António Ferro. Um ano depois é instituída legalmente uma Comissão
de Censura, tendo sob a sua tutela a censura teatral e cinematográfica. Esta
Comissão era constituída pelo Secretário-Geral do Ministério (presidente),
pelo Inspector dos Espectáculos (vice-presidente), nove vogais e um
secretário. O SNI estava representado através de três delegados.
Em 1948 fica assente que qualquer tipo de exibição só seria possível após a
atribuição de uma "Licença de Exibição", dependente de um "visto de
censura". Era a institucionalização do controlo, legislando ainda sobre a
criação de salas de cinema e a segmentação etárias dos filmes. António Ferro
nunca gostou da censura, mas nunca a combateu a sério, encaixando os desejos
e justificações de Salazar, e talvez por também servir os seus propósitos.
Quando ainda não era o mentor da propaganda do Estado Novo, Ferro, nas suas
entrevistas a Salazar no início dos anos trinta, questiona o então jovem
ditador sobre esta questão. "Eu compreendo que a censura os irrite -
responde-me o dr. Salazar - porque não há nada que o homem considere mais
sagrado do que o seu pensamento e do que a expressão do seu pensamento. Vou
mais longe: chego a concordar que a censura é uma instituição defeituosa,
injusta, por vezes, sujeita ao livre arbítrio dos censores, às variantes do
seu temperamento, às consequências do seu mau humor." Queixando-se de ter
sido, ele próprio, vítima da censura durante a República, o que lhe trouxe
um sabor amargo, justifica-se com laivos de paternalismo: "A censura, hoje -
responde Salazar - por muito paradoxal que a afirmação lhe pareça, constitui
a legítima defesa dos Estados livres, independentes, contra a grande
desorientação do pensamento moderno, a revolução internacional da desordem."
Salazar sabe que os factos só se tornam verdades plenas quando deles se tem
conhecimento. Ele encarregar-se-ia de fornecer as suas verdades à população,
construindo outra realidade.
A esmagadora maioria dos filmes censurados durante o Estado Novo era
proveniente do estrangeiro. Só entre 1964 e 67, foram apresentados à Censura
1301 filmes, sendo que, destes, 145 foram proibidos, e 693 autorizados com
cortes.
Até 1936 as malhas eram largas mas, com o início da Guerra Civil Espanhola,
como aponta João Bénard da Costa "a censura começou a censurar mesmo
(proibiram-se os filmes russos, os filmes da «Frente Popular» francesa, os
filmes apologéticos ou simpatizantes com a «España Leal» republicana".
Durante a II Guerra Mundial, diversos filmes anti-nazis não eram permitidos.
Portugal era, ainda assim, palco dos confrontos entre as facções
beligerantes e seus apoiantes.
Se a máquina alemã encontrava público principalmente entre militares e
para-militares portugueses, a indústria cinematográfica norte-americana
ainda levava a melhor. Ambas as facções faziam exibições privadas, tendo os
aliados conseguido, após alguma resistência dos exibidores, que temiam
confrontos entre o público, a exibição de documentários antes dos filmes.
Após o final da guerra, numa curta fase de distensão do regime, entram
finalmente filmes como "Casablanca", que esteve dez semanas em cartaz. Só
que, como recorda Bénard da Costa, logo o cerco voltou a apertar, tendo como
grandes vítimas as obras do neo-realismo italiano e alguma filmografia
francesa. Por outro lado, todos os filmes do Leste europeu e soviéticos eram
suspeitos.
No que diz respeito à filmografia portuguesa, as referências a filmes com
partes censuradas existem desde, pelo menos, 1937. José de Matos-Cruz refere
que a versão conservada de "
Maria Papoila", da autoria de Leitão de Barros, tem cortes de censura. O
que não impede o facto deste ter sido o primeiro filme financiado pelo SPN.
No ano seguinte, a "Aldeia
da Roupa Branca", de Chianca de Garcia, sofreu um corte, pequeno, mas
ainda assim um corte, numa cena considerada "imoral". Em 1952, "
Nazaré", de Manuel Guimarães, sob argumento de Alves Redol, foi
exibido, mas retalhado.
A Censura, no entanto, não se exercia apenas de forma activa. Os
importadores de filmes estrangeiros não encomendavam nada que julgassem
passível de ser censurado, de modo a evitar despesas e problemas. Preferiam
a censura total em vez da exibição com cortes. Desta forma, viam devolvido o
sinal pago pela sua importação. Caso o filme fosse exibido com cortes,
teriam que pagar os direitos, correndo o risco dos filmes, esvaziados de
cenas por vezes fundamentais, não agradarem ao público. Por outro lado, os
privados que financiavam em Portugal, nunca dariam o seu dinheiro a um
projecto que não estivesse de acordo com a ideia cinematográfica do Estado
Novo. Do ponto de vista da realização, para além do facto de muitos autores
serem a favor do regime, a auto-censura era uma constante. Constituía a
prova de que o sistema funcionava. Se à partida se liberalizava a produção,
pois não se controlava os argumentos e filmagens, ninguém se daria ao
trabalho de avançar com um projecto passível de ser censurado no final.
A criação do #Fundo do Cinema Nacional#, a partir de 1948, tido por Ferro
como uma forma de tornar viável o cinema português, não é mais do que uma
outra mordaça. Sem forma de viabilização comercial, a indústria nacional
torna-se refém do julgamento governamental, do que deve ou não ser criado,
através da atribuição dos subsídios.
O mundo do cinema não se restringia só à tela, pelo que também os livros e
as revistas, bem como as notícias sobre os filmes, eram alvo de análise por
parte dos censores. No dia 4 de Abril de 1967, o coronel Pinheiro, com o seu
lápis azul, escreve: "Qualquer referência ao filme «Quem tem medo de
Virgínia Wolf» - SUSPENDER". Diversos números das revistas "Ciné revue",
"Films and filming", "Film Comment" e "Cahiers du cinema" foram proibidos de
circular.
Embora tivesse sempre como fiel da balança os critérios da lei de 1927, a
censura cinematográfica (tal como a exercida sobre outras artes), variava
conforme quem a exercia e a conjuntura. Após a tomada de Damão, Goa e Diu,
nenhum filme indiano foi autorizado a passar em Portugal até 1974. Com a
Guerra Colonial, o enfoque repressivo incidiu sobre os filmes de temática
pacifista.
É a partir desta época, com destaque para os anos 70, já com Marcelo
Caetano, sucessor de Salazar, que aumenta o número de filmes nacionais
proibidos. A "Primavera marcelista", nome por que ficou conhecida a promessa
de renovação do regime, era uma projecto adiado. Mudavam-se os tempos, mas
não as vontades.
De Julho de 1971 a Março de 1972, foram conduzidos 304 filmes à estrutura
agora chamada de Comissão de Exame e Classificação de Espectáculos. Destes,
mesmo após recursos, 37 foram proibidos, e 132 cortados. Ficava, dos filmes
portugueses, "A Promessa" de António Macedo, produzido em 72, e que é o
primeiro filme onde a Censura autoriza a visão de dois corpos nus.
Pior sorte tiveram "Sofia e a Educação
Sexual", de Eduardo Geada, "
Nojo aos Cães" de António de Macedo, "
Nem Amantes, Nem Amigos" , de Orlando Vitorino , "
Índia", de António Faria, "
Grande, Grande era a Cidade", de Rogério Ceitil, "
O Mal-Amado", de Fernando Matos Silva, "
Deixem-me ao Menos Subir às Palmeiras", de Lopes Barbosa, "
Quem Espera por Sapatos de Defunto", de César Monteiro ou, ainda nos ano
60, "Catembe", de Faria de
Almeida. Todos eles viram impedida a sua exibição. O testemunho de alguns
destes realizadores é indispensável para perceber melhor o que era e como
funcionava a Censura. Com o Movimento das Forças Armadas, na madrugada de 24
para 25 de Abril de 1974, esta cai, juntamente com Marcelo Caetano.
Fontes:
ANTÓNIO, Lauro. "Cinema e censura em Portugal", Biblioteca Museu República e
Resistência, Lisboa, 2001.
AZEVEDO, Cândido de. "A censura de Salazar e Caetano", Editorial Caminho,
Lisboa, 1999.
COSTA, João Benard da. "Histórias do cinema", IN-CM, Lisboa, 1991.
CRUZ, José de Matos-. "O cais do olhar", Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 1999.
FERRO, António. "Salazar, o homem e a sua obra", Edições Fernando Pereira,
Lisboa, 1982.
GEADA, Eduardo. "O imperialismo e o fascismo no cinema", Moraes Editores,
1977. "O cinema sob o olhar de Salazar", coordenação de Luís Reis Torgal,
Temas e Debates, Lisboa, 2001.
PRÍNCIPE, César. "Os segredos da censura", Editorial Caminho, Lisboa, 1979.
TELO, António José. "Propaganda e guerra secreta em Portugal", Perspectivas
e Realidades, Lisboa, 1990.
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