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O Cinema no Estado Novo
Não foi há muito tempo, o Estado Novo. Durou mais anos do que aqueles que passaram desde que terminou, na madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974. As suas marcas são ainda visíveis hoje, nomeadamente na ansiedade de tentar criar uma indústria de cinema num país onde ela nunca existiu.
 
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Vasco Granja (Fot. Bruno Barbosa)
07-08-2003
Cinema de Animação
Uma Vida Cheia de Animação
 
Vasco Granja é uma figura incontornável na animação portuguesa. O homem que nos trouxe a pluralidade desta arte, mostrando obras que iam desde o Canadá até à Checoslováquia, quando o Leste ainda estava fechado por uma cortina, mostra as suas referências e o seu passado neste entrevista. Uma vida rica que começou em 1925, cinquenta anos antes de surgir na RTP.
Vasco Granja (Fot. Bruno Barbosa)  
 
 

Apaixonado desde miúdo pelo cinema, Vasco Granja esteve envolvido no movimento cineclubista dos anos cinquenta. A sua relação com os movimentos de oposição ao Estado Novo e ao Partido Comunista Português valeram-lhe duas prisões pela PIDE, mas nem por isso deixou de estar presente no primeiro festival mundial de Animação, em Annecy, França, nos anos 60. Ganhou então uma nova paixão, cujo ídolo maior era o canadiano Norman McLaren, que conheceu pessoalmente.

Em 1974 inaugurou um novo programa na televisão, "Cinema de Animação", que duraria 16 anos. Foram mais de mil programas em que mostrou de tudo um pouco, desde a animação norte-americana, canadiana e europeia até aos países de Leste. Logo em 1975 concebeu um curso de Cinema de Animação, do qual germinaria a Associação Portuguesa de Cinema de Animação.

Entusiasta do Cinanima, defende o estatuto próprio da animação, já que, como escreveu o próprio, esta tem "uma linguagem autónoma, que nada ou quase nada tem a ver com a técnica e a estética do cinema, excepto no que se refere ao suporte material". Sem nunca deixar-se influenciar pelo ambiente político, sobreviveu às constantes mudanças de administrações da RTP, e influenciou toda uma nova geração de criadores de animação portugueses. Aos 77 anos, Vasco Granja continua a ser uma referência incontornável no panorama da animação em português.

Quando é que nasceu?

Nasci no dia 10 de Julho de 1925.

Quando começa a tomar consciência do que o rodeia já está implementado o Estado Novo, portanto.

Já. A grande época, para mim, de revelação de todas essas coisas foi a Guerra de Espanha. Eu ouvia falar nos "vermelhos", na rua onde eu morava, a Cecílio de Sousa, e não sabia o que era. Embora tenha nascido em Campo de Ourique, os meus pais mudaram-se para a Rua Cecílio de Sousa, junto da Escola Politécnica, e aí passei muito tempo.

Estudou na zona do Bairro Alto, então.

Estudei na Escola 12 do Bairro Alto. Quando passo por aí ainda vou espreitar, mas está completamente desfigurada.

Costuma ir ao Bairro Alto?

Não, não. Vou só se passagem. O Bairro Alto para mim tem um encanto muito especial, porque foi uma zona que conheci intensamente, e os meus empregos giraram sempre a volta do Chiado.

Até onde é que prosseguiu os seus estudos?

Até à Escola Industrial Machado de Castro. Fiz o terceiro ano. No quarto chumbei por causa da Álgebra, que era uma coisa impenetrável para mim. Sempre fui muito mais dedicado às letras.

Nessa altura, em que desiste de estudar, qual era a sua idade?

Eu não desisti de estudar, isto é... arranjei um emprego, aí aos quinze anos, nos Armazéns do Chiado.

Fazia o quê?

Dava amostras de seda. Naquele tempo davam-se amostras.

Dava às senhoras para elas escolherem quando faziam os seus tecidos?

Exacto. Eu era, vá lá, o especialista das amostras. Havia uma máquina e tinha um papel que se dobrava e agrafava com o preço, a dimensão, etc. Esse foi o meu primeiro emprego.

Que era no mesmo no coração de Lisboa...

Era, era. O carnaval, por exemplo, era muito intenso. Havia uma grande concentração de jornais, como o Diário de Lisboa, entre outros.

E depois, o que é que fez?

Repararam que eu tinha gostos de leitura, e então mudaram-me para a Publicidade. O meu primeiro contacto com a publicidade foi nos Armazéns do Chiado, que consistia em fazer os cartazes para as montras. Os Armazéns tinham muitas montras, e tinha-se que pintar os cartazes, fazer os anúncios para a Imprensa...

Que tipo de anúncios?

Anúncios de saldos, quando havia novidades, tecidos novos...de modo que passei a ocupar-me da secção de publicidade. Mas o ordenado era muito poucochinho, e fui parar à Foto Áurea, na Rua do Ouro, nº 200, que já não existe. Um primo meu tinha passado vários anos nesse estabelecimento e levou-me para lá . Aqui tinha que dar banhos...ficava com as unhas todas negras.

O que fazia depois do emprego, ia aos cafés?

Não, o meu circuito nessa época era solitário. Descobria muita coisa. Ia, por exemplo, à Biblioteca Nacional, que naquela altura era acessível a jovens. Eu corri muitas coisas...ia visitar os museus, ali da zona do Chiado. Tinha uma grande curiosidade por tudo, pela pintura...por tudo. E também me interessava por desporto, lia os relatos da Volta a Portugal, e fui sócio do Benfica.

E agora, ainda é?

Não! Isso já passou. Embora o Benfica seja o meu clube.

Há quanto tempo é que já não é sócio?

Isso agora...já tenho setenta e tal anos, não é? Já lá vão cerca de cinquenta anos, desde que deixei de ser sócio. Mas foi sócio quando o Benfica era nas Amoreiras e era de telhados de zinco, excepto a bancada central. Aí levava um pão, com uma omolete, uma laranjada, e pumba! Via os jogos todos, até os infantis.

Por essa altura já tinha o gosto pelo cinema, julgo eu. Quando é que lhe nasce essa curiosidade?

Logo desde miúdo. Porque naquele tempo não havia classificação etária, qualquer um ia ao cinema. Eu percorria todos os cinemas em Lisboa. E tive amizade com um tipógrafo de "O Século", que era muito perto da casa onde eu morava, e ele dava-me bilhetes de imprensa que já ninguém queria, para sítios longe. Um deles era o Palatino, no alto de Alcântara. De maneira que lá ia eu, mais outro companheiro, até Alcântara. Passávamos no Largo do Rato, comprávamos ali um tostão ou dois de tremoços, que era a nossa refeição durante o passeio, e íamos e vínhamos a pé. Isso é que era cinefilismo, ein?

Há uma determinada altura em que começa a participar e a organizar sessões de filmes, julgo que no início da década de 50.

Foi a grande época do movimento cineclubista, e que irrompeu no País todo, na Madeira, Angola, Moçambique...os de Moçambique eram os mais privilegiados, porque com o contacto com a África do Sul tinham filmes como o "Couraçado Pomtemkin", e nós tínhamos uma inveja enorme de não ver esses filmes, que só pudemos visionar mais tarde.

Essas sessões de cineclubismo podem-se considerar como sessões de resistência cultural?

De resistência antifascista. Que me levou dois anos à prisão. Passei do cineclube mais ousado, mas combativo. Era o Cineclube de Imagem. Havia a revista Imagem, e um dos grandes nomes era o José Ernesto de Sousa, que fez o filme "D. Roberto". O cineclube tinha um conjunto de intelectuais, formidável, como o José Vaz Pereira, e outros.

Tinham salas fixas, alugavam, como é que isso funcionava?

Alugávamos as salas, e tínhamos o Centro Espanhol, na Rua Nova da Trindade, por nossa conta. Os espanhóis simpatizavam muito connosco, disponibilizaram a sala deles, magnífica, e os sócios do Cineclube Imagem tinham acesso ao Centro Espanhol. Em contrapartida, eles podiam assistir às nossas sessões sem pagar bilhete.

Faziam o visionamento de que tipo de filmes?

Os das embaixadas. Havia um manancial imenso. As embaixadas daquele tempo estavam enriquecidas com filmes de 16 mm, a que nós, cineclubistas, recorríamos...havia um, dos mais importantes, que era o Nuno Portas, o pai dos Portas actuais, que foi um grande cineclubista, e que alinhava connosco, embora fosse católico, etc, mas não havia qualquer espécie de preconceitos.

Mas não passavam filmes à margem da Censura?

Não. Só podíamos passar os filmes aprovados pela Censura. Tínhamos que levar os filmes para serem vistos pela Censura, e também as embaixadas só passavam filmes visados.

Como é que se deu então a sua primeira prisão pela PIDE, devido ao cineclubismo, se os filmes eram visados pela Censura?

Isso foi no cinema Capitólio, a minha primeira prisão. Foi em 1952, creio, e o dinheiro da venda dos bilhetes ia para o movimento da resistência. Fazíamos sessões com filmes italianos, neo-realistas, que nos exaltavam.

Como o "Ladrão de bicicletas".

Claro, esse era o mais famoso.

Quando diz que eram fundos para o movimento de resistência, refere-se ao Partido Comunista Português?

Não. Eram para os movimentos que, digamos assim, eram legais, que durante as eleições tinham liberdade de actuar. Estive muito envolvido nisso. Claro que da actividade legal à ilegal era um passo.

Conte lá então como é que se deu a sua primeira prisão. Qual era o filme exibido?

O filme que eu fui contratar era o "Caminho da Esperança". Naquele tempo entrava à uma da tarde, tinha um emprego na Casa Travassos, onde estive dezasseis anos, e representou muito para mim porque o Rossio era o centro vital de Lisboa, onde conheci e convivi com uma quantidade de intelectuais que não imagina. Convidavam-se para ir a casa deles ou a manifestações, e eu aproveitei isso ao máximo. A minha personalidade, porque não tenho curso nenhum, como lhe disse, foi moldada nesse regime de grande inquietação artística.

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Voltando à PIDE...

Pois. O filme era legal (trata de mineiros sicilianos que emigram para França), de Pietro Germi, um dos grandes autores italianos. Simplesmente, o dinheiro é que era para apoio aos presos, e o cinema Capitólio foi assaltado pela PIDE. Eu e a minha mulher saltámos pela janela e não fomos identificados.

Nessa altura já era casado.

Já, casei novo. A minha mulher era de uma família de camponeses do Ribatejo, de esquerda. Conhecemo-nos num baile, eu, que nem sei dançar. Hoje já temos netos e bisnetas.

Saíram então os dois por uma janela do Capitólio...

Exacto, eu, a minha mulher, e muitas outras pessoas. Só que houve uns tipos de uma companhia de seguros, mais papistas que o Papa, que me tinham avisado que se houvesse chatices com a PIDE eles diziam como é que tinha sido, que eu lhes tinha vendido os bilhetes. Eles podiam ter disfarçado, mas não.

E como é que se dá a prisão?

Eles mandaram-me uma contra-fé, e nesse tempo nós éramos rebeldes, pelo que eu rasguei a contra-fé e não quis saber daquilo para nada. Eles depois foram-me buscar a casa e levaram-me para a PIDE. Pela rua, nem foi um carro nem nada (risos). Aí fiquei seis meses.

Onde é que ficou?

No Aljube. Conheço muito bem o Aljube, as músicas, a Sé, a zona envolvente, tudo. Aquilo tinha um ritual impressionante.

Esteve sozinho numa cela ou acompanhado?

Ao princípio estive sozinho numa cela. Nem podia ter livros.

São ao fim de seis meses, que era o máximo de pena sem julgamento.

Sim, mas também por não ter ligações com o Partido Comunista, mas sim com esses movimentos da oposição que havia periodicamente.

Mas foi membro do PCP, não foi?

Sim. E foi por isso que fui preso pela segunda vez, nos anos sessenta. Dessa vez fui preso durante 16 meses. No tribunal lá estava eu, o Viriato Camilo, do Coro Lopes Graça, e o Henrique Espírito Santo, cineclubista, que era das pessoas mais competentes em Portugal ao nível da produção de filmes. Fui preso por estar ao PCP, à célula comunista dos cineclubes. E havia denúncias, nós denunciávamo-nos uns aos outros, por causa da tortura do sono. Aliás, eu denunciei os outros como eles me denunciaram a mim, não há nenhum choque entre nós. Não havia outra maneira. A tortura do sono, na António Maria Cardoso, era uma coisa horrível, com dias seguidos, períodos de 24 horas. A coisa mais curiosa...a prisão era um acto de rebeldia para nós, comunistas, e então, faltava menos de um mês para eu sair em liberdade quando eles me mandam para Peniche, por um acto qualquer meu. E mandaram-me para uma prisão de penas de longa duração. Eu, pessoalmente, gostei da experiência. Gostei de lá estar, de ouvir os ruídos todos, a sereia. Voltei outra vez ao isolamento, vi uma prisão total. Passado um mês, soltaram-me.

Quando ém 1960. Esse foi o ano em saio do País pela primeira vez, para ir a Annecy, em França. Fui como representante de Portugal ao primeiro festival de animação do mundo. A PIDE estava à espera de mim e da minha mulher, no regresso, para revistarem tudo. Foi o abrir de uma porta de um vasto mundo. Nunca mais deixei de receber convites, e participei em muitos eventos em diversas partes. A viagem mais importante da minha vida foi ir ao Canadá ver o Normam McLaren, que foi o melhor ídolo que tive na vida.

É logo após o 25 de Abril de 1974 que se dá a oportunidade de ter um programa de animação na RTP. Como é que isso surgiu?

Já antes do 25 de Abril eu tinha ido fazer pequenos apontamentos, e depois, nessa altura, convidaram-me para meia dúzia de programas, e acabei por fazer para cima de mil.

Quais foram as animações que passou na sua primeira sessão?

Acho que recorri aos fundos da Embaixada do Canadá e passei o Norman McLaren.

Foi considerado o pai da Pantera Cor de Rosa, que não utilizava vozes...

Isso é a pantomina. Era o que fazia o Charlie Chaplin. O que é preciso é ser-se genial. Essa foi uma época gloriosa, em que eu e a minha mulher fomos a muitos festivais, a Espanha, França, Itália.

Iam também a festivais de Leste?

Sim, fui a Zagreb...fui à Jugoslávia, à União Soviética.

Quem é escolhia as animações que passava nos seus programas?

Eu, na maior parte dos casos, mas também tive pessoas que me indicavam filmes, dos quais não se pagavam direitos, etc.

Sobreviveu a imensas mudanças de administrações na RTP, até sair em 1990.

Sim, é verdade, passei da esquerda à direita. Acho que por ter sido exemplar, neutro, por ter mostrado sempre filmes de todos os países. Ao longo da minha vida juntei imenso material. Até tinha uma casa no Carregado onde guardava tudo. Entretanto já ofereci muita coisa, como a bibliotecas.

É verdade que a RTP apagou os seus programas do arquivo?

Bom, isso é norma. Não se pode arquivar tudo.

É uma norma apagar tanta coisa dos arquivos?

Então e o espaço que ocupava? Oiça lá, e a despesa que é a manutenção do arquivo?

Na minha opinião, défice por défice, pelo que menos que a RTP tenha parte do seu prejuízo por guardar e conservar o seu espólio, histórico.

Bom, mas eles têm apontamentos de tudo, como têm de mim. Ainda guardam algumas imagens minhas.

O que é que tinha em mente quando fazia os seus programas, quando seleccionava as animações?

Isso era consoante o tema, e eu também convidava pessoas a participar, miúdos e graúdos.

Mas tinha alguma mensagem que queria fazer passar?

Sim, a mensagem da paz, por exemplo, da não-violência, da cultura. Havia uns do Leste que eram magníficos, e hoje ninguém os vê.

Eu via, e lembro-me de ver alguns muito belos, mas alguns eram incompreensíveis...

Eu às vezes também não entendia (risos). Mas eu não tinha o direito de não gostar. Houvesse alguém...Havia coisas complicadíssimas, é verdade. Por isso é que cheguei a ter dois programas semanais. Um mais para as crianças, digamos, e outro mais de pesquisa. A RTP sempre se comportou bem comigo.

Deve ter havido uma grande diferença quando se passou do preto e branco para a cor.

Mas olhe que os filmes a preto e branco também têm muita importância.

Sim, só que com uma televisão a cores pode-se ver cinema, as pessoas reconhecem-no?

Agora muito menos, felizmente. Mas há quem ainda me reconheça.

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  Luís Villalobos

 

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