Apaixonado desde miúdo pelo cinema, Vasco Granja esteve envolvido no
movimento cineclubista dos anos cinquenta. A sua relação com os movimentos
de oposição ao Estado Novo e ao Partido Comunista Português valeram-lhe duas
prisões pela PIDE, mas nem por isso deixou de estar presente no primeiro
festival mundial de Animação, em Annecy, França, nos anos 60. Ganhou então
uma nova paixão, cujo ídolo maior era o canadiano Norman McLaren, que
conheceu pessoalmente.
Em 1974 inaugurou um novo programa na televisão, "Cinema de Animação", que
duraria 16 anos. Foram mais de mil programas em que mostrou de tudo um
pouco, desde a animação norte-americana, canadiana e europeia até aos países
de Leste. Logo em 1975 concebeu um curso de Cinema de Animação, do qual
germinaria a Associação Portuguesa de Cinema de Animação.
Entusiasta do Cinanima, defende o estatuto próprio da animação, já que, como
escreveu o próprio, esta tem "uma linguagem autónoma, que nada ou quase nada
tem a ver com a técnica e a estética do cinema, excepto no que se refere ao
suporte material". Sem nunca deixar-se influenciar pelo ambiente político,
sobreviveu às constantes mudanças de administrações da RTP, e influenciou
toda uma nova geração de criadores de animação portugueses. Aos 77 anos,
Vasco Granja continua a ser uma referência incontornável no panorama da
animação em português.
Quando é que nasceu?
Nasci no dia 10 de Julho de 1925.
Quando começa a tomar consciência do que o rodeia já está implementado o
Estado Novo, portanto.
Já. A grande época, para mim, de revelação de todas essas coisas foi a
Guerra de Espanha. Eu ouvia falar nos "vermelhos", na rua onde eu morava, a
Cecílio de Sousa, e não sabia o que era. Embora tenha nascido em Campo de
Ourique, os meus pais mudaram-se para a Rua Cecílio de Sousa, junto da
Escola Politécnica, e aí passei muito tempo.
Estudou na zona do Bairro Alto, então.
Estudei na Escola 12 do Bairro Alto. Quando passo por aí ainda vou
espreitar, mas está completamente desfigurada.
Costuma ir ao Bairro Alto?
Não, não. Vou só se passagem. O Bairro Alto para mim tem um encanto muito
especial, porque foi uma zona que conheci intensamente, e os meus empregos
giraram sempre a volta do Chiado.
Até onde é que prosseguiu os seus estudos?
Até à Escola Industrial Machado de Castro. Fiz o terceiro ano. No quarto
chumbei por causa da Álgebra, que era uma coisa impenetrável para mim.
Sempre fui muito mais dedicado às letras.
Nessa altura, em que desiste de estudar, qual era a sua idade?
Eu não desisti de estudar, isto é... arranjei um emprego, aí aos quinze
anos, nos Armazéns do Chiado.
Fazia o quê?
Dava amostras de seda. Naquele tempo davam-se amostras.
Dava às senhoras para elas escolherem quando faziam os seus tecidos?
Exacto. Eu era, vá lá, o especialista das amostras. Havia uma máquina e
tinha um papel que se dobrava e agrafava com o preço, a dimensão, etc. Esse
foi o meu primeiro emprego.
Que era no mesmo no coração de Lisboa...
Era, era. O carnaval, por exemplo, era muito intenso. Havia uma grande
concentração de jornais, como o Diário de Lisboa, entre outros.
E depois, o que é que fez?
Repararam que eu tinha gostos de leitura, e então mudaram-me para a
Publicidade. O meu primeiro contacto com a publicidade foi nos Armazéns do
Chiado, que consistia em fazer os cartazes para as montras. Os Armazéns
tinham muitas montras, e tinha-se que pintar os cartazes, fazer os anúncios
para a Imprensa...
Que tipo de anúncios?
Anúncios de saldos, quando havia novidades, tecidos novos...de modo que
passei a ocupar-me da secção de publicidade. Mas o ordenado era muito
poucochinho, e fui parar à Foto Áurea, na Rua do Ouro, nº 200, que já não
existe. Um primo meu tinha passado vários anos nesse estabelecimento e
levou-me para lá . Aqui tinha que dar banhos...ficava com as unhas todas
negras.
O que fazia depois do emprego, ia aos cafés?
Não, o meu circuito nessa época era solitário. Descobria muita coisa. Ia,
por exemplo, à Biblioteca Nacional, que naquela altura era acessível a
jovens. Eu corri muitas coisas...ia visitar os museus, ali da zona do
Chiado. Tinha uma grande curiosidade por tudo, pela pintura...por tudo. E
também me interessava por desporto, lia os relatos da Volta a Portugal, e
fui sócio do Benfica.
E agora, ainda é?
Não! Isso já passou. Embora o Benfica seja o meu clube.
Há quanto tempo é que já não é sócio?
Isso agora...já tenho setenta e tal anos, não é? Já lá vão cerca de
cinquenta anos, desde que deixei de ser sócio. Mas foi sócio quando o
Benfica era nas Amoreiras e era de telhados de zinco, excepto a bancada
central. Aí levava um pão, com uma omolete, uma laranjada, e pumba! Via os
jogos todos, até os infantis.
Por essa altura já tinha o gosto pelo cinema, julgo eu. Quando é que lhe
nasce essa curiosidade?
Logo desde miúdo. Porque naquele tempo não havia classificação etária,
qualquer um ia ao cinema. Eu percorria todos os cinemas em Lisboa. E tive
amizade com um tipógrafo de "O Século", que era muito perto da casa onde eu
morava, e ele dava-me bilhetes de imprensa que já ninguém queria, para
sítios longe. Um deles era o Palatino, no alto de Alcântara. De maneira que
lá ia eu, mais outro companheiro, até Alcântara. Passávamos no Largo do
Rato, comprávamos ali um tostão ou dois de tremoços, que era a nossa
refeição durante o passeio, e íamos e vínhamos a pé. Isso é que era
cinefilismo, ein?
Há uma determinada altura em que começa a participar e a organizar sessões
de filmes, julgo que no início da década de 50.
Foi a grande época do movimento cineclubista, e que irrompeu no País todo,
na Madeira, Angola, Moçambique...os de Moçambique eram os mais
privilegiados, porque com o contacto com a África do Sul tinham filmes como
o "Couraçado Pomtemkin", e nós tínhamos uma inveja enorme de não ver esses
filmes, que só pudemos visionar mais tarde.
Essas sessões de cineclubismo podem-se considerar como sessões de
resistência cultural?
De resistência antifascista. Que me levou dois anos à prisão. Passei do
cineclube mais ousado, mas combativo. Era o Cineclube de Imagem. Havia a
revista Imagem, e um dos grandes nomes era o José Ernesto de Sousa, que fez
o filme "D. Roberto". O cineclube tinha um conjunto de intelectuais,
formidável, como o José Vaz Pereira, e outros.
Tinham salas fixas, alugavam, como é que isso funcionava?
Alugávamos as salas, e tínhamos o Centro Espanhol, na Rua Nova da Trindade,
por nossa conta. Os espanhóis simpatizavam muito connosco, disponibilizaram
a sala deles, magnífica, e os sócios do Cineclube Imagem tinham acesso ao
Centro Espanhol. Em contrapartida, eles podiam assistir às nossas sessões
sem pagar bilhete.
Faziam o visionamento de que tipo de filmes?
Os das embaixadas. Havia um manancial imenso. As embaixadas daquele tempo
estavam enriquecidas com filmes de 16 mm, a que nós, cineclubistas,
recorríamos...havia um, dos mais importantes, que era o Nuno Portas, o pai
dos Portas actuais, que foi um grande cineclubista, e que alinhava connosco,
embora fosse católico, etc, mas não havia qualquer espécie de preconceitos.
Mas não passavam filmes à margem da Censura?
Não. Só podíamos passar os filmes aprovados pela Censura. Tínhamos que levar
os filmes para serem vistos pela Censura, e também as embaixadas só passavam
filmes visados.
Como é que se deu então a sua primeira prisão pela PIDE, devido ao
cineclubismo, se os filmes eram visados pela Censura?
Isso foi no cinema Capitólio, a minha primeira prisão. Foi em 1952, creio, e
o dinheiro da venda dos bilhetes ia para o movimento da resistência.
Fazíamos sessões com filmes italianos, neo-realistas, que nos exaltavam.
Como o "Ladrão de bicicletas".
Claro, esse era o mais famoso.
Quando diz que eram fundos para o movimento de resistência, refere-se ao
Partido Comunista Português?
Não. Eram para os movimentos que, digamos assim, eram legais, que durante as
eleições tinham liberdade de actuar. Estive muito envolvido nisso. Claro que
da actividade legal à ilegal era um passo.
Conte lá então como é que se deu a sua primeira prisão. Qual era o filme
exibido?
O filme que eu fui contratar era o "Caminho da Esperança". Naquele tempo
entrava à uma da tarde, tinha um emprego na Casa Travassos, onde estive
dezasseis anos, e representou muito para mim porque o Rossio era o centro
vital de Lisboa, onde conheci e convivi com uma quantidade de intelectuais
que não imagina. Convidavam-se para ir a casa deles ou a manifestações, e eu
aproveitei isso ao máximo. A minha personalidade, porque não tenho curso
nenhum, como lhe disse, foi moldada nesse regime de grande inquietação
artística.
Voltando à PIDE...
Pois. O filme era legal (trata de mineiros sicilianos que emigram para
França), de Pietro Germi, um dos grandes autores italianos. Simplesmente, o
dinheiro é que era para apoio aos presos, e o cinema Capitólio foi assaltado
pela PIDE. Eu e a minha mulher saltámos pela janela e não fomos
identificados.
Nessa altura já era casado.
Já, casei novo. A minha mulher era de uma família de camponeses do Ribatejo,
de esquerda. Conhecemo-nos num baile, eu, que nem sei dançar. Hoje já temos
netos e bisnetas.
Saíram então os dois por uma janela do Capitólio...
Exacto, eu, a minha mulher, e muitas outras pessoas. Só que houve uns tipos
de uma companhia de seguros, mais papistas que o Papa, que me tinham avisado
que se houvesse chatices com a PIDE eles diziam como é que tinha sido, que
eu lhes tinha vendido os bilhetes. Eles podiam ter disfarçado, mas não.
E como é que se dá a prisão?
Eles mandaram-me uma contra-fé, e nesse tempo nós éramos rebeldes, pelo que
eu rasguei a contra-fé e não quis saber daquilo para nada. Eles depois
foram-me buscar a casa e levaram-me para a PIDE. Pela rua, nem foi um carro
nem nada (risos). Aí fiquei seis meses.
Onde é que ficou?
No Aljube. Conheço muito bem o Aljube, as músicas, a Sé, a zona envolvente,
tudo. Aquilo tinha um ritual impressionante.
Esteve sozinho numa cela ou acompanhado?
Ao princípio estive sozinho numa cela. Nem podia ter livros.
São ao fim de seis meses, que era o máximo de pena sem julgamento.
Sim, mas também por não ter ligações com o Partido Comunista, mas sim com
esses movimentos da oposição que havia periodicamente.
Mas foi membro do PCP, não foi?
Sim. E foi por isso que fui preso pela segunda vez, nos anos sessenta. Dessa
vez fui preso durante 16 meses. No tribunal lá estava eu, o Viriato Camilo,
do Coro Lopes Graça, e o Henrique Espírito Santo, cineclubista, que era das
pessoas mais competentes em Portugal ao nível da produção de filmes. Fui
preso por estar ao PCP, à célula comunista dos cineclubes. E havia
denúncias, nós denunciávamo-nos uns aos outros, por causa da tortura do
sono. Aliás, eu denunciei os outros como eles me denunciaram a mim, não há
nenhum choque entre nós. Não havia outra maneira. A tortura do sono, na
António Maria Cardoso, era uma coisa horrível, com dias seguidos, períodos
de 24 horas. A coisa mais curiosa...a prisão era um acto de rebeldia para
nós, comunistas, e então, faltava menos de um mês para eu sair em liberdade
quando eles me mandam para Peniche, por um acto qualquer meu. E mandaram-me
para uma prisão de penas de longa duração. Eu, pessoalmente, gostei da
experiência. Gostei de lá estar, de ouvir os ruídos todos, a sereia. Voltei
outra vez ao isolamento, vi uma prisão total. Passado um mês, soltaram-me.
Quando ém 1960. Esse foi o ano em saio do País pela primeira vez, para ir a
Annecy, em França. Fui como representante de Portugal ao primeiro festival
de animação do mundo. A PIDE estava à espera de mim e da minha mulher, no
regresso, para revistarem tudo. Foi o abrir de uma porta de um vasto mundo.
Nunca mais deixei de receber convites, e participei em muitos eventos em
diversas partes. A viagem mais importante da minha vida foi ir ao Canadá ver
o Normam McLaren, que foi o melhor ídolo que tive na vida.
É logo após o 25 de Abril de 1974 que se dá a oportunidade de ter um
programa de animação na RTP. Como é que isso surgiu?
Já antes do 25 de Abril eu tinha ido fazer pequenos apontamentos, e depois,
nessa altura, convidaram-me para meia dúzia de programas, e acabei por fazer
para cima de mil.
Quais foram as animações que passou na sua primeira sessão?
Acho que recorri aos fundos da Embaixada do Canadá e passei o Norman McLaren.
Foi considerado o pai da Pantera Cor de Rosa, que não utilizava vozes...
Isso é a pantomina. Era o que fazia o Charlie Chaplin. O que é preciso é
ser-se genial. Essa foi uma época gloriosa, em que eu e a minha mulher fomos
a muitos festivais, a Espanha, França, Itália.
Iam também a festivais de Leste?
Sim, fui a Zagreb...fui à Jugoslávia, à União Soviética.
Quem é escolhia as animações que passava nos seus programas?
Eu, na maior parte dos casos, mas também tive pessoas que me indicavam
filmes, dos quais não se pagavam direitos, etc.
Sobreviveu a imensas mudanças de administrações na RTP, até sair em 1990.
Sim, é verdade, passei da esquerda à direita. Acho que por ter sido
exemplar, neutro, por ter mostrado sempre filmes de todos os países. Ao
longo da minha vida juntei imenso material. Até tinha uma casa no Carregado
onde guardava tudo. Entretanto já ofereci muita coisa, como a bibliotecas.
É verdade que a RTP apagou os seus programas do arquivo?
Bom, isso é norma. Não se pode arquivar tudo.
É uma norma apagar tanta coisa dos arquivos?
Então e o espaço que ocupava? Oiça lá, e a despesa que é a manutenção do
arquivo?
Na minha opinião, défice por défice, pelo que menos que a RTP tenha parte do
seu prejuízo por guardar e conservar o seu espólio, histórico.
Bom, mas eles têm apontamentos de tudo, como têm de mim. Ainda guardam
algumas imagens minhas.
O que é que tinha em mente quando fazia os seus programas, quando
seleccionava as animações?
Isso era consoante o tema, e eu também convidava pessoas a participar,
miúdos e graúdos.
Mas tinha alguma mensagem que queria fazer passar?
Sim, a mensagem da paz, por exemplo, da não-violência, da cultura. Havia uns
do Leste que eram magníficos, e hoje ninguém os vê.
Eu via, e lembro-me de ver alguns muito belos, mas alguns eram
incompreensíveis...
Eu às vezes também não entendia (risos). Mas eu não tinha o direito de não
gostar. Houvesse alguém...Havia coisas complicadíssimas, é verdade. Por isso
é que cheguei a ter dois programas semanais. Um mais para as crianças,
digamos, e outro mais de pesquisa. A RTP sempre se comportou bem comigo.
Deve ter havido uma grande diferença quando se passou do preto e branco para
a cor.
Mas olhe que os filmes a preto e branco também têm muita importância.
Sim, só que com uma televisão a cores pode-se ver cinema, as pessoas
reconhecem-no?
Agora muito menos, felizmente. Mas há quem ainda me reconheça.
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