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Após a invenção da lanterna mágica, no século XVII, e dos avanços alcançados
no século XIX, a animação ganha um espaço próprio no mundo do cinema, com
destaque para "Little Nemo" (1911) e "Gertie, o Dinossauro", (1914), de
Winsor McCay, e o "Gato Félix" (1919), de Otto Messmer.
Em Portugal, é através de "O Pesadelo de António Maria", de 1923, que se
fixa o nascimento do cinema de animação. Foi há oitenta anos que esta sátira
política sobre António Maria da Silva, um dos mais destacados líderes
republicanos (foi chefe de governo por seis vezes após, encontrando-se
nestas funções quando se deu o Ditadura Militar em 28 de Maio de 1926), se
estreou na noite de 25 de Janeiro no Éden-Teatro, em Lisboa. Este era
apresentado como "um filme cómico da mais flagrante actualidade", incidindo
sobre as posições do chefe de Governo face à conjuntura nacional e a sua
relação com Afonso Costa, personalidade que influenciou toda a Primeira
República.
O filme abria a revista "Tiro ao Alvo", inserindo-se numa nova vertente da
programação intitulada "Fitas Faladas". Embora fosse mudo, "O Pesadelo de
António Maria" recorreria a vozes ao vivo, tendo sido ilustrado e realizado
por Joaquim Guerreiro. Este era desenhador de diversos periódicos, como "O
Século", "Ilustração Portuguesa", "O Zé" e "A Sátira".
Apesar de se julgar perdido, o filme foi recuperado pela
Cinanima, que o encontrou por acaso nos seus arquivos, tendo sido uma
oferta de Oswaldo Sousa, da Humorgrafe. Este encontrara os desenhos num
alfarrabista e decidira-se pela sua entrega ao Cinanima. Quando se deu a sua
descoberta, decidiu-se apostar na sua reconstituição, que culminou com a
exibição no Festival de Espinho em 2001, aguardando-se agora a sua edição em
VHS e DVD, com extras, pela associação Cartoon Portugal. Recuperado o
registo, é agora tempo de dar a conhecer ao público este documento histórico.
António Gaio aponta que "O Jornal dos Cinemas" apresentava este filme como
sendo "a primeira película portuguesa de desenhos animados". Só que muitos
anos depois ainda havia quem alegasse para si essa primazia.
Por outro lado, José Matos-Cruz levanta a dúvida, colocando a hipótese do
pioneirismo ser de 1920, ano em que terá surgido uma curta-metragem animada,
para efeitos de publicidade. Na sua origem estava a empresa Nunes & Quintão,
que teria dado movimentos ao cão da "His Master's Voice" (companhia
discográfica). Luís Nunes, em 1988, numa entrevista ao semanário "O
Independente", afirma que essa animação existiu, tendo ele apenas treze
anos, e que teria sido filmada por Manuel Luís Vieira. No entanto, não
havendo registos documentados desta animação, "O Pesadelo de António Maria"
continua a ser referenciado o pioneiro.
Depois de "O Pesadelo de António Maria", outros filmes feitos por
portugueses perderam-se ou foram destruídos, como os de Fred Netto ("Uma
Viagem à Lua", inspirado em Júlio Verne) e de João Rodrigues Alves ("Uma
História de Camelos"), de 1929 e 1930, respectivamente.
Para se voltar a ter conhecimento objectivo de um filme de animação
português é preciso esperar até 1 de Junho de 1931, data em que estreia a
"Lenda de Miragaia", no Jardim Cinema, em Lisboa. Filme mudo em época de
advento do sonoro, a "Lenda de Miragaia" era a primeira produção portuguesa
de silhuetas animadas, permanecendo ainda hoje como o único do seu género a
nível nacional. A referência dos seus autores, Raul Faria da Fonseca e
António Cunhal (irmão de Álvaro Cunhal, o líder histórico do Partido
Comunista Português), terá sido "As Aventuras do Príncipe Achmed", da alemão
Lotte Reiniger, datado de 1926, apesar de se pensar que nunca o visionaram.
Este é a longa metragem de animação mais antiga da qual ainda existem
cópias, sendo que "El Apostol", do argentino Quirino Cristiani, de 1917, é
tido como o pioneiro, mas sem qualquer existência física conhecida.
Num barracão alugado no Campo Grande, e com a ajuda de um operador
estrangeiro radicado em Portugal, Thomas Mary Rossel, o filme, legendado,
apostava em cenas curtas, tendo 400 metros de extensão, onde estavam
inseridos 24.800 fotogramas. António Gaio, citando a revista "Cinéfilo" de
1930, mostra as dificuldades dos autores, através das suas próprias
palavras. Raul Faria da Fonseca sublinhava que "nunca vimos nenhum filme de
silhuetas animadas.
Nada há escrito sobre o assunto. Nada há que nos sirva de guia". Por seu
lado, António Cunhal mostrava as dificuldades de tal projecto, e que se
podem transpor, regra geral, para os filmes de animação, ainda hoje:
"Algumas cenas que na tela durarão uns segundos exigem da nossa parte um
trabalho aturado de alguns dias. O trote e o galope dos cavalos, por
exemplo, deu-nos que pensar. Fazer trotar um cavalinho de papel é muito mais
difícil que ensinar um cavalo verdadeiro a fazer habilidades de circo...
Temos que estudar primeiro, de um modo esquemático, os movimentos, e
aperfeiçoá-los depois, para serem aplicados às cenas a que se destinam". À
porta do barracão estava um letreiro com o nome da sua nova produtora:
"Ulyssea Filme", tendo o filme sido distribuído pela Sociedade Universal de
Super-filmes - SUS.
Após esta odisseia, há um novo espaço vazio, embora surjam algumas
referências a produções das quais não há rasto, como o "Semi-fusas", de
Hernâni Tavares (Seravat) até ao início dos anos 40, quando se envereda pela
animação de "O Boneco Rebelde", de Sérgio Luiz. A personagem criada por
Sérgio Luiz já ilustrava as páginas de "O papagaio", publicação
infanto-juvenil, tendo depois o seu autor optado pela animação. Conta
António Gaio que "até as radiografias que tinha por causa da tuberculose
renal serviram para as transparências do filme". Eram projectos solitários,
com muito de invenção e mais ainda de dedicação, quando em países como os
EUA já a Walt Disney produzia longas-metragens que permanecem ainda hoje
verdadeiras obras-primas, como "Branca de Neve e os Sete Anões" (1937),
"Pinóquio" (1939), "Fantasia" (1941) e "Bambi" (1942). Sérgio Luiz consegue
que os espectadores dos filmes exibidos nos cinemas Jardim Cinema e Europa
vissem um novo projecto de animação portuguesa, em que o "boneco rebelde"
movimentava os ponteiros do relógio que marcava a duração do intervalo. No
entanto, devido à sua doença, Sérgio Luiz não pôde desenvolver mais
trabalhos nesta área, vindo a falecer em Janeiro de 1943, com 21 anos.
É nesta época que surge Servais Tiago, vencedor do prémio da Casa Pathé, que
tinha como júri figuras como António Lopes Ribeiro e a pintura Keil do es
cinquenta filmes publicitários. Era já o tempo que a publicidade dava
trabalho aos autores. Para trás ficavam ainda trabalhos como "Um filme
português de bonecos articulados", onde um boneco contracena com humanos, de
Francisco Sousa Neves, ainda em 1945 e, um ano mais tarde, "As Palavras de
Salazar", uma produção algo original de Adolfo Coelho onde, misturando
realidade e animação, se reuniam em apenas 55 metros de fita algumas da
palavras do Presidente do Conselho. Era o fim da primeira idade da animação
portuguesa.
A publicidade dominava a produção, com a ajuda da televisão, que arrancara
em 1957, destacando-se nomes como Mário Neves (que esteve na base da
publicidade à Laranjina), Eurico Ferreira (anúncio da Farinha Amparo),
Álvaro Patrício, Luís Beja, Artur Correia e Ricardo Neto. Luís Beja é
conhecido por "O Fidaldo e o Vagabundo", filme de autor que realizou para a
Ulyssea filme. Já Artur Correia e Ricardo Neto percorrem toda a década de
setenta e de oitenta, funcionando como os dois autores mais produtivos do
panorama português. Conceberam cerca de vinte curtas metragens de animação,
a solo ou em conjunto. No seu historial estão filmes ligados à publicidade
ou a temas como as fábulas, tendo Artur Corrreia ganho em 1966 o primeiro
prémio na categoria de publicidade, em Veneza, com "O Melhor da Rua". Este
era um anúncio comercial para a Schweppes, que, no entanto, a empresa de
refrigerantes recusara. Com esta animação, Artur Correia ganharia ainda o
primeiro lugar de animação publicitária em Annecy, sendo seleccionado como
um dos dez melhores filmes do ano pela Hollywood Radio and Television City
no sétimo encontro anual dos Advertising International Broadcasting Awards.
O cinema de autor, no entanto, nunca desaparecera. Manuel Matos Barbosa e
Vasco Branco foram diversas vezes premiados, tendo concebido trabalhos nos
anos 60 e 70. Matos Barbosa, que realizara documentários, enveredou depois
pela animação, destacando-se "A Prenda ", em 1968, e "O Pedestal", em 1973.
Quanto a Vasco Branco, foi o autor de "Todos os Dias o Crucificamos", em
1970, e "O Menino Rico e Menino Pobre", de 1972, onde evidencia as
diferenças de classes sociais. Ao todo, Vasco Branco realizou 17 obras de
animação, terminando o seu trabalho em 1984. Também Artur Correia e Ricardo
Neto fizeram diversas animação fora da publicidade, como "A lenda do mar
tenebroso", em 1975, em colaboração com a italiana Crona Film, sendo a
primeira vez que um filme português era introduzido num conjunto coerente de
produções europeias, uma série intitulada "La Favolística Europea".
Seguiram-se outras, como "A Casa Feita de Sonho", em 1977, a lembrar o
"Principezinho", de Saint-Exupery. O culminar desta dupla seria os treze
episódios de "O Romance da Raposa", transmitidos pela RTP no final dos ano
oitenta.
O pós-25 de Abril, pela sua liberdade de expressão, permitiu que mais
autores mostrassem trabalho nesta área, como Jana, pseudónimo de João
Cipriano de Jesus, que realizou animações como "A Semente Não Morre", em
1975 e "Os Líricos", em 1980. Em 1976 surge a segunda sátira política,
depois de "O Pesadelo de António Maria", desta fez dedicado ao ditador
espanhol, intitulado "Franco Assassino", pela mão de António Pilar. Por esta
altura, distinguiram-se também diversos autores, como Manuel Carvalho
Baptista, com "A banda do Maestro pinguim", em 1977, e "Numemberg", em 1984.
Apoiados por subsídios do então Instituto Português de Cinema (IPC), vieram
à tona obras de Mário Neves, como "Beth", um trabalho gráfico inspirado numa
sinfonia de Bach, e Fernando Correia. Pintor, desenhador humorístico, foi o
criador da animação infantil "Pit, o Coelhinho Verde", tendo depois, com o
apoio do IPC, realizado diversos trabalhos, como "Não Quero Ser Palhaço" e
"O Cientista Mau".
Em 1977 surge o Cinanima, festival internacional de animação de Espinho que
ainda hoje existe, e que ajudaria a formar toda uma nova geração de
realizadores de animação, ao mesmo tempo que
Vasco Granja mostrava, todas as semanas na RTP, o que de melhor havia
desta arte espalhada pelo mundo.
Da nova geração vingaram diversas figuras, como Abi Feijó, Fernando Galrito,
Francisco Lança, Regina Pessoa, José Pedro Cavalheiro, Pedro Serrazina, e
José Miguel Ribeiro, entre outros. São os tempos do encerramento de empresas
como a Topfilme, mais ligadas à publicidade, mas marcos da animação
portuguesa, e o aparecimento de outras, como a
Filmógrafo, e a entrada em cena de colectivos como o Cineclube de
Avanca. No geral, nota-se uma maior presença de estruturas e animadores no
norte, com destaque para o Porto, a que não será alheio o facto do Cinanima
se realizar na cidade de Espinho. Em Lisboa, a estrutura mais destacada
ligada à animação é a CITEN, da Gulbenkian, autêntica escola de formação. Se
os marcos introdutórios desta nova geração podem ser "OH! Que calma", de
Feijó, em 1985, e "Evasão, invasão", de Galrito, em 1986, diversos trabalhos
se distinguiram posteriormente pela qualidade, seja ao nível das técnicas ou
dos argumentos. É o caso de "Shshsh - Sinfonia incompleta", de Mário Neves,
"Estória do gato e da lua", de Pedro Serrazina", "A noite", de Regina
Pessoa, "Clandestino", de Abi Feijó, e "A Suspeita", de José Miguel Ribeiro.
Este último filme foi mesmo o ponto mais alto da animação portuguesa, tendo
ganho diversos prémios nacionais e internacionais, como o Cartoon D'or 2000,
da Associação Europeia de Animação. Um pico que dificilmente será atingido
novamente a curto prazo, porque as condições que se reuniram para a sua
concepção estão hoje alteradas. No último Cinanima, em Novembro de 2002,
(onde se verificou o aumento de animações por computador) o panorama era de
crise, provocado por factores como a indefinição dos subsídios do ICAM, o
futuro incerto da Casa da Animação,a ausência de interesse das televisões
(depois do sucesso de animações como "Os Patinhos"), e o encerramento de
produtoras de referência como o Filmógrafo. Só que nem por isso deixa de
haver animação nacional. José Miguel Ribeiro, por exemplo, encantou o
público no Cinanima com "As coisas lá de casa", tendo concorrido com esta
animação ao Festival Internacional de Séries de Animação Cartoons on the Bay
na categoria de Melhor Série Infantil, em Abril de 2003.
Mark Baker, realizador britânico vencedor do Cartoon D'or em 1993 e júri do
Cinanima de 2002, declarou ao jornal "Público" que, em relação a Portugal,
tinha a impressão de que não havia cá propriamente um indústria, "mas sim
indivíduos". Nada mais certo. Por outro lado, não deixava de realçar que
"também em Londres a indústria é muito frágil. Não é nada como na América. O
mais próximo que temos disso é a Aardman que, no entanto, é uma excepção".
Fontes:
COSTA, Luís e AUGUSTO, Mário. "Memórias de prata - Cinanima 25 anos", Edição
Ideias e Conteúdos, 2001. CRUZ, José de Matos-. "Prontuário do
cinema português, 1896-1989", Edição Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 1989.
GAIO, António. "História do cinema português de animação - contributos",
Edição Porto 2001, Porto, 2001.
Recortes de Imprensa: "A Aardman é uma excepção, mesmo em Inglaterra",
artigo do jornal "Público" de 10 de Novembro de 2002.
"Primeira longa metragem da história", artigo do jornal "Público" de 23 de
Janeiro de 2002.
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