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O Boneco Rebelde, de Sérgio Luiz
07-08-2003
Cinema de Animação
A Origem de Um Sonho Animado
 
A animação nasce em Portugal no tempo do cinema mudo, e irá ser um género inconstante até aos anos 60. Nessa altura, encontra-se com a publicidade, atingindo a maturidade no pós-25 de Abril.
"O Boneco Rebelde", de Sérgio Luiz  
 
 

Após a invenção da lanterna mágica, no século XVII, e dos avanços alcançados no século XIX, a animação ganha um espaço próprio no mundo do cinema, com destaque para "Little Nemo" (1911) e "Gertie, o Dinossauro", (1914), de Winsor McCay, e o "Gato Félix" (1919), de Otto Messmer.

Em Portugal, é através de "O Pesadelo de António Maria", de 1923, que se fixa o nascimento do cinema de animação. Foi há oitenta anos que esta sátira política sobre António Maria da Silva, um dos mais destacados líderes republicanos (foi chefe de governo por seis vezes após, encontrando-se nestas funções quando se deu o Ditadura Militar em 28 de Maio de 1926), se estreou na noite de 25 de Janeiro no Éden-Teatro, em Lisboa. Este era apresentado como "um filme cómico da mais flagrante actualidade", incidindo sobre as posições do chefe de Governo face à conjuntura nacional e a sua relação com Afonso Costa, personalidade que influenciou toda a Primeira República.

O filme abria a revista "Tiro ao Alvo", inserindo-se numa nova vertente da programação intitulada "Fitas Faladas". Embora fosse mudo, "O Pesadelo de António Maria" recorreria a vozes ao vivo, tendo sido ilustrado e realizado por Joaquim Guerreiro. Este era desenhador de diversos periódicos, como "O Século", "Ilustração Portuguesa", "O Zé" e "A Sátira".

Apesar de se julgar perdido, o filme foi recuperado pela Cinanima, que o encontrou por acaso nos seus arquivos, tendo sido uma oferta de Oswaldo Sousa, da Humorgrafe. Este encontrara os desenhos num alfarrabista e decidira-se pela sua entrega ao Cinanima. Quando se deu a sua descoberta, decidiu-se apostar na sua reconstituição, que culminou com a exibição no Festival de Espinho em 2001, aguardando-se agora a sua edição em VHS e DVD, com extras, pela associação Cartoon Portugal. Recuperado o registo, é agora tempo de dar a conhecer ao público este documento histórico.

António Gaio aponta que "O Jornal dos Cinemas" apresentava este filme como sendo "a primeira película portuguesa de desenhos animados". Só que muitos anos depois ainda havia quem alegasse para si essa primazia.

Por outro lado, José Matos-Cruz levanta a dúvida, colocando a hipótese do pioneirismo ser de 1920, ano em que terá surgido uma curta-metragem animada, para efeitos de publicidade. Na sua origem estava a empresa Nunes & Quintão, que teria dado movimentos ao cão da "His Master's Voice" (companhia discográfica). Luís Nunes, em 1988, numa entrevista ao semanário "O Independente", afirma que essa animação existiu, tendo ele apenas treze anos, e que teria sido filmada por Manuel Luís Vieira. No entanto, não havendo registos documentados desta animação, "O Pesadelo de António Maria" continua a ser referenciado o pioneiro.

Depois de "O Pesadelo de António Maria", outros filmes feitos por portugueses perderam-se ou foram destruídos, como os de Fred Netto ("Uma Viagem à Lua", inspirado em Júlio Verne) e de João Rodrigues Alves ("Uma História de Camelos"), de 1929 e 1930, respectivamente.

Para se voltar a ter conhecimento objectivo de um filme de animação português é preciso esperar até 1 de Junho de 1931, data em que estreia a "Lenda de Miragaia", no Jardim Cinema, em Lisboa. Filme mudo em época de advento do sonoro, a "Lenda de Miragaia" era a primeira produção portuguesa de silhuetas animadas, permanecendo ainda hoje como o único do seu género a nível nacional. A referência dos seus autores, Raul Faria da Fonseca e António Cunhal (irmão de Álvaro Cunhal, o líder histórico do Partido Comunista Português), terá sido "As Aventuras do Príncipe Achmed", da alemão Lotte Reiniger, datado de 1926, apesar de se pensar que nunca o visionaram. Este é a longa metragem de animação mais antiga da qual ainda existem cópias, sendo que "El Apostol", do argentino Quirino Cristiani, de 1917, é tido como o pioneiro, mas sem qualquer existência física conhecida.

Num barracão alugado no Campo Grande, e com a ajuda de um operador estrangeiro radicado em Portugal, Thomas Mary Rossel, o filme, legendado, apostava em cenas curtas, tendo 400 metros de extensão, onde estavam inseridos 24.800 fotogramas. António Gaio, citando a revista "Cinéfilo" de 1930, mostra as dificuldades dos autores, através das suas próprias palavras. Raul Faria da Fonseca sublinhava que "nunca vimos nenhum filme de silhuetas animadas.

Nada há escrito sobre o assunto. Nada há que nos sirva de guia". Por seu lado, António Cunhal mostrava as dificuldades de tal projecto, e que se podem transpor, regra geral, para os filmes de animação, ainda hoje: "Algumas cenas que na tela durarão uns segundos exigem da nossa parte um trabalho aturado de alguns dias. O trote e o galope dos cavalos, por exemplo, deu-nos que pensar. Fazer trotar um cavalinho de papel é muito mais difícil que ensinar um cavalo verdadeiro a fazer habilidades de circo... Temos que estudar primeiro, de um modo esquemático, os movimentos, e aperfeiçoá-los depois, para serem aplicados às cenas a que se destinam". À porta do barracão estava um letreiro com o nome da sua nova produtora: "Ulyssea Filme", tendo o filme sido distribuído pela Sociedade Universal de Super-filmes - SUS.

Após esta odisseia, há um novo espaço vazio, embora surjam algumas referências a produções das quais não há rasto, como o "Semi-fusas", de Hernâni Tavares (Seravat) até ao início dos anos 40, quando se envereda pela animação de "O Boneco Rebelde", de Sérgio Luiz. A personagem criada por Sérgio Luiz já ilustrava as páginas de "O papagaio", publicação infanto-juvenil, tendo depois o seu autor optado pela animação. Conta António Gaio que "até as radiografias que tinha por causa da tuberculose renal serviram para as transparências do filme". Eram projectos solitários, com muito de invenção e mais ainda de dedicação, quando em países como os EUA já a Walt Disney produzia longas-metragens que permanecem ainda hoje verdadeiras obras-primas, como "Branca de Neve e os Sete Anões" (1937), "Pinóquio" (1939), "Fantasia" (1941) e "Bambi" (1942). Sérgio Luiz consegue que os espectadores dos filmes exibidos nos cinemas Jardim Cinema e Europa vissem um novo projecto de animação portuguesa, em que o "boneco rebelde" movimentava os ponteiros do relógio que marcava a duração do intervalo. No entanto, devido à sua doença, Sérgio Luiz não pôde desenvolver mais trabalhos nesta área, vindo a falecer em Janeiro de 1943, com 21 anos.

É nesta época que surge Servais Tiago, vencedor do prémio da Casa Pathé, que tinha como júri figuras como António Lopes Ribeiro e a pintura Keil do es cinquenta filmes publicitários. Era já o tempo que a publicidade dava trabalho aos autores. Para trás ficavam ainda trabalhos como "Um filme português de bonecos articulados", onde um boneco contracena com humanos, de Francisco Sousa Neves, ainda em 1945 e, um ano mais tarde, "As Palavras de Salazar", uma produção algo original de Adolfo Coelho onde, misturando realidade e animação, se reuniam em apenas 55 metros de fita algumas da palavras do Presidente do Conselho. Era o fim da primeira idade da animação portuguesa.

A publicidade dominava a produção, com a ajuda da televisão, que arrancara em 1957, destacando-se nomes como Mário Neves (que esteve na base da publicidade à Laranjina), Eurico Ferreira (anúncio da Farinha Amparo), Álvaro Patrício, Luís Beja, Artur Correia e Ricardo Neto. Luís Beja é conhecido por "O Fidaldo e o Vagabundo", filme de autor que realizou para a Ulyssea filme. Já Artur Correia e Ricardo Neto percorrem toda a década de setenta e de oitenta, funcionando como os dois autores mais produtivos do panorama português. Conceberam cerca de vinte curtas metragens de animação, a solo ou em conjunto. No seu historial estão filmes ligados à publicidade ou a temas como as fábulas, tendo Artur Corrreia ganho em 1966 o primeiro prémio na categoria de publicidade, em Veneza, com "O Melhor da Rua". Este era um anúncio comercial para a Schweppes, que, no entanto, a empresa de refrigerantes recusara. Com esta animação, Artur Correia ganharia ainda o primeiro lugar de animação publicitária em Annecy, sendo seleccionado como um dos dez melhores filmes do ano pela Hollywood Radio and Television City no sétimo encontro anual dos Advertising International Broadcasting Awards.

O cinema de autor, no entanto, nunca desaparecera. Manuel Matos Barbosa e Vasco Branco foram diversas vezes premiados, tendo concebido trabalhos nos anos 60 e 70. Matos Barbosa, que realizara documentários, enveredou depois pela animação, destacando-se "A Prenda ", em 1968, e "O Pedestal", em 1973. Quanto a Vasco Branco, foi o autor de "Todos os Dias o Crucificamos", em 1970, e "O Menino Rico e Menino Pobre", de 1972, onde evidencia as diferenças de classes sociais. Ao todo, Vasco Branco realizou 17 obras de animação, terminando o seu trabalho em 1984. Também Artur Correia e Ricardo Neto fizeram diversas animação fora da publicidade, como "A lenda do mar tenebroso", em 1975, em colaboração com a italiana Crona Film, sendo a primeira vez que um filme português era introduzido num conjunto coerente de produções europeias, uma série intitulada "La Favolística Europea". Seguiram-se outras, como "A Casa Feita de Sonho", em 1977, a lembrar o "Principezinho", de Saint-Exupery. O culminar desta dupla seria os treze episódios de "O Romance da Raposa", transmitidos pela RTP no final dos ano oitenta.

O pós-25 de Abril, pela sua liberdade de expressão, permitiu que mais autores mostrassem trabalho nesta área, como Jana, pseudónimo de João Cipriano de Jesus, que realizou animações como "A Semente Não Morre", em 1975 e "Os Líricos", em 1980. Em 1976 surge a segunda sátira política, depois de "O Pesadelo de António Maria", desta fez dedicado ao ditador espanhol, intitulado "Franco Assassino", pela mão de António Pilar. Por esta altura, distinguiram-se também diversos autores, como Manuel Carvalho Baptista, com "A banda do Maestro pinguim", em 1977, e "Numemberg", em 1984. Apoiados por subsídios do então Instituto Português de Cinema (IPC), vieram à tona obras de Mário Neves, como "Beth", um trabalho gráfico inspirado numa sinfonia de Bach, e Fernando Correia. Pintor, desenhador humorístico, foi o criador da animação infantil "Pit, o Coelhinho Verde", tendo depois, com o apoio do IPC, realizado diversos trabalhos, como "Não Quero Ser Palhaço" e "O Cientista Mau".

Em 1977 surge o Cinanima, festival internacional de animação de Espinho que ainda hoje existe, e que ajudaria a formar toda uma nova geração de realizadores de animação, ao mesmo tempo que Vasco Granja mostrava, todas as semanas na RTP, o que de melhor havia desta arte espalhada pelo mundo.

Da nova geração vingaram diversas figuras, como Abi Feijó, Fernando Galrito, Francisco Lança, Regina Pessoa, José Pedro Cavalheiro, Pedro Serrazina, e José Miguel Ribeiro, entre outros. São os tempos do encerramento de empresas como a Topfilme, mais ligadas à publicidade, mas marcos da animação portuguesa, e o aparecimento de outras, como a Filmógrafo, e a entrada em cena de colectivos como o Cineclube de Avanca. No geral, nota-se uma maior presença de estruturas e animadores no norte, com destaque para o Porto, a que não será alheio o facto do Cinanima se realizar na cidade de Espinho. Em Lisboa, a estrutura mais destacada ligada à animação é a CITEN, da Gulbenkian, autêntica escola de formação. Se os marcos introdutórios desta nova geração podem ser "OH! Que calma", de Feijó, em 1985, e "Evasão, invasão", de Galrito, em 1986, diversos trabalhos se distinguiram posteriormente pela qualidade, seja ao nível das técnicas ou dos argumentos. É o caso de "Shshsh - Sinfonia incompleta", de Mário Neves, "Estória do gato e da lua", de Pedro Serrazina", "A noite", de Regina Pessoa, "Clandestino", de Abi Feijó, e "A Suspeita", de José Miguel Ribeiro.

Este último filme foi mesmo o ponto mais alto da animação portuguesa, tendo ganho diversos prémios nacionais e internacionais, como o Cartoon D'or 2000, da Associação Europeia de Animação. Um pico que dificilmente será atingido novamente a curto prazo, porque as condições que se reuniram para a sua concepção estão hoje alteradas. No último Cinanima, em Novembro de 2002, (onde se verificou o aumento de animações por computador) o panorama era de crise, provocado por factores como a indefinição dos subsídios do ICAM, o futuro incerto da Casa da Animação,a ausência de interesse das televisões (depois do sucesso de animações como "Os Patinhos"), e o encerramento de produtoras de referência como o Filmógrafo. Só que nem por isso deixa de haver animação nacional. José Miguel Ribeiro, por exemplo, encantou o público no Cinanima com "As coisas lá de casa", tendo concorrido com esta animação ao Festival Internacional de Séries de Animação Cartoons on the Bay na categoria de Melhor Série Infantil, em Abril de 2003.

Mark Baker, realizador britânico vencedor do Cartoon D'or em 1993 e júri do Cinanima de 2002, declarou ao jornal "Público" que, em relação a Portugal, tinha a impressão de que não havia cá propriamente um indústria, "mas sim indivíduos". Nada mais certo. Por outro lado, não deixava de realçar que "também em Londres a indústria é muito frágil. Não é nada como na América. O mais próximo que temos disso é a Aardman que, no entanto, é uma excepção".

Fontes:

COSTA, Luís e AUGUSTO, Mário. "Memórias de prata - Cinanima 25 anos", Edição Ideias e Conteúdos, 2001.
CRUZ, José de Matos-. "Prontuário do cinema português, 1896-1989", Edição Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 1989.
GAIO, António. "História do cinema português de animação - contributos", Edição Porto 2001, Porto, 2001.

Recortes de Imprensa:
"A Aardman é uma excepção, mesmo em Inglaterra", artigo do jornal "Público" de 10 de Novembro de 2002.
"Primeira longa metragem da história", artigo do jornal "Público" de 23 de Janeiro de 2002.

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  Luís Villalobos

 

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