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07-08-2003
Um Pouco de Fumo
 
 
Há episódios que nos fazem sorrir. Como quando nos deparamos com notícias velhas, o que não é o mesmo que velhas notícias. Com estas últimas deparamo-nos todos os dias. Quanto às primeiras, estão guardadas por zelosos funcionários que protegem as folhas amarelas, sufocadas pela falta de ar, do manuseamento claramente irresponsável desses seres que, na sua opinião, nunca deviam entrar em locais como a hemeroteca: os curiosos.
 
 
 

Perante o silêncio pesado do funcionário de bata azul e dedos manchados de tanto molhar na saliva e puxar pelo canto da página do jornal do dia - nunca deve ter visto O Nome da Rosa - a procura infrutífera da listagem sistematizada dos prémios do SNI encontra o que não pretendia. Uma curiosidade.

O sorriso ganha terreno à medida que o tempo recua. Estamos na redacção de o «Cinéfilo» uma das muitas revistas que nasceram e morreram apaixonadas pelo cinema. Escreve o seu redactor, no meio de uma sala encharcada de fumo, cigarro no canto da boca, dedos poderosos nas teclas a pedir tinta da maquina de escrever que, «como se sabe, foi posta, finalmente, em vigor a doutrina do decreto de 1927 que proíbe o fumo nas salas de cinema. Até quando?».

Sim, até quando vamos assistir, impávidos e serenos, à imposição da doutrina? O redactor, um curioso dos anos 20, achou «oportuno um inquérito a tal respeito. Dos seus resultados vamos dar conta a seguir». Ora nem mais, nem que seja para irritar a tal da doutrina. Abordado o «amável e distinto» gerente da «importante sala Tivoli» responde: «Não vejo inconveniente em que se fume nos cinemas desde que estejam bem instalados e possuam um bom sistema de ventilação. Antigamente argumentava-se com o facto das senhoras serem incomodadas pelo fumo.

Mas ninguém ignora que, actualmente, muitas senhoras, sem que deixem de ser de todo respeitáveis, fumam, pelo menos em sua casa. Por outro lado, o fumo não prejudica...os artistas de cinema». Almeida Ribeiro, o «activo gerente» do Cinema Condes, manifesta-se a sua opinião: «Já vê que os artigos 156º e 188º afecta gravemente os seus espectadores que se vêem privados duma importante regalia, pois afasta-os das sala

A questão não é de salubridade, mas sim da história das mentalidades, e de como elas se adaptam. O ser humano fumador sabe que se for ver o «Apocalypse Now Redux» está tramado. Ou escolhe a cena do jantar com os franceses para ir estrategicamente lá fora, depois de ter escolhido um lugar na coxia ou espera ansiosamente que a luz dos cintos se apague e a da sala se acenda, com a vantagem de ter a bagagem à mão. Percorrendo a mesma linha, não deixa de ser curioso o facto das companhias áreas, ávidas de testar os seus serviços de segurança sobre seres nicotinamente alterados, passarem filmes gastos em que todos os personagens, antes de dizer «olá» e «adeus», puxam de um cigarro, geralmente Gitanes, que é o que provoca mais efeito cénico, e dão grandes baforadas. «Toma lá que é para não te estares a rir a meio do voo, e lembra-te que ainda faltam quatro horas e meia», não dizem os personagens a cores.

A doutrina do fumador perdeu. Tudo bem, até se percebe porquê. Só não se percebe é que agora, mesmo nas telas, onde o fumo não incomoda os espectadores, os cigarros sejam tão desejados como as brigadas de inspecção nas salas de burlesco dos tristes anos 30 norte-americanos. Só mesmo o herói amargurado e o vilão condenado à partida é que estão autorizados a fumar em Hollywood. Os restantes fazem logo parte dos circuitos alternativos, ou mesmo marginais. Será que daqui a uns anos o fumo é banido das telas? Talvez valha a pena fazer um inquérito sobre o assunto.

Luís Villalobos

 

 

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