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Perante o silêncio pesado do funcionário de bata azul e dedos manchados de
tanto molhar na saliva e puxar pelo canto da página do jornal do dia - nunca
deve ter visto O Nome da Rosa - a procura infrutífera da listagem
sistematizada dos prémios do SNI encontra o que não pretendia. Uma
curiosidade.
O sorriso ganha terreno à medida que o tempo recua. Estamos na redacção de o
«Cinéfilo» uma das muitas revistas que nasceram e morreram apaixonadas pelo
cinema. Escreve o seu redactor, no meio de uma sala encharcada de fumo,
cigarro no canto da boca, dedos poderosos nas teclas a pedir tinta da
maquina de escrever que, «como se sabe, foi posta, finalmente, em vigor a
doutrina do decreto de 1927 que proíbe o fumo nas salas de cinema. Até
quando?».
Sim, até quando vamos assistir, impávidos e serenos, à imposição da
doutrina? O redactor, um curioso dos anos 20, achou «oportuno um inquérito a
tal respeito. Dos seus resultados vamos dar conta a seguir». Ora nem mais,
nem que seja para irritar a tal da doutrina. Abordado o «amável e distinto»
gerente da «importante sala Tivoli» responde: «Não vejo inconveniente em que
se fume nos cinemas desde que estejam bem instalados e possuam um bom
sistema de ventilação. Antigamente argumentava-se com o facto das senhoras
serem incomodadas pelo fumo.
Mas ninguém ignora que, actualmente, muitas senhoras, sem que deixem de ser
de todo respeitáveis, fumam, pelo menos em sua casa. Por outro lado, o fumo
não prejudica...os artistas de cinema». Almeida Ribeiro, o «activo gerente»
do Cinema Condes, manifesta-se a sua opinião: «Já vê que os artigos 156º e
188º afecta gravemente os seus espectadores que se vêem privados duma
importante regalia, pois afasta-os das sala
A questão não é de salubridade, mas sim da história das mentalidades, e de
como elas se adaptam. O ser humano fumador sabe que se for ver o «Apocalypse
Now Redux» está tramado. Ou escolhe a cena do jantar com os franceses para
ir estrategicamente lá fora, depois de ter escolhido um lugar na coxia ou
espera ansiosamente que a luz dos cintos se apague e a da sala se acenda,
com a vantagem de ter a bagagem à mão. Percorrendo a mesma linha, não deixa
de ser curioso o facto das companhias áreas, ávidas de testar os seus
serviços de segurança sobre seres nicotinamente alterados, passarem filmes
gastos em que todos os personagens, antes de dizer «olá» e «adeus», puxam de
um cigarro, geralmente Gitanes, que é o que provoca mais efeito cénico, e
dão grandes baforadas. «Toma lá que é para não te estares a rir a meio do
voo, e lembra-te que ainda faltam quatro horas e meia», não dizem os
personagens a cores.
A doutrina do fumador perdeu. Tudo bem, até se percebe porquê. Só não se
percebe é que agora, mesmo nas telas, onde o fumo não incomoda os
espectadores, os cigarros sejam tão desejados como as brigadas de inspecção
nas salas de burlesco dos tristes anos 30 norte-americanos. Só mesmo o herói
amargurado e o vilão condenado à partida é que estão autorizados a fumar em
Hollywood. Os restantes fazem logo parte dos circuitos alternativos, ou
mesmo marginais. Será que daqui a uns anos o fumo é banido das telas? Talvez
valha a pena fazer um inquérito sobre o assunto.
Luís Villalobos
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