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O que tem esta escatológica questão a ver com o cinema em geral e o cinema
português em particular?, interrogar-se-á o impaciente leitor desta humilde
crónica, ainda pouco habituado aos devaneios do seu autor.
A resposta, expressa na evidência prometida no parágrafo anterior, é esta:
O cinema é uma forma de espectáculo. E sendo o espectáculo necessariamente
uma coisa viva, sucede que não pode estar morto. Ora, acontece que o cinema
português, muitas vezes, se não está defunto parece pelo menos tão morto
vivo como as personagens de «Plano 9 dos Vampiros Zombie».
Como qualquer forma de espectáculo, vide o futebol, o automobilismo, o ténis
ou, já agora, o golfe, o nosso cinema necessita daquilo a que se
convencionou chamar «as estrelas». As estrelas são actores e actrizes com os
quais o público se relaciona, são as caras que atraem as audiências com os
seus nomes em destacadas letras nos cartazes, são a garantia de uma
interpretação não apenas capaz mas brilhante, em cada um dos seus
desempenhos. São, em suma, a condição sine qua non da exportação das nossas
obras no mercado externo.
Sucede que, em Portugal, não existem estrelas. Ou seja, não existem actores
e actrizes de qualidade e de referência exportável. Não temos uma Catherine
Deneuve como os franceses, nem um Antonio Banderas como os espanhóis, e nem
vale a pena citar nomes ingleses ou norte-americanos. Isto é, não temos
estrelas de marca. O que temos são fracassos ou desistências: Um Joaquim de
Almeida que preferiu a segurança dos papéis de segunda ordem em Hollywood,
as irmãs Medeiros que optaram pelo outro lado da câmara, uma Alexandra
Lencastre que só agora parece querer regressar à representação «séria»,
depois de abdicar em prol do conforto do lar e de esporádicos programas
televisivos que já ninguém recorda, ou um Diogo Infante com escassa lucidez
na escolha que faz dos papéis que interpreta no grande ecrã. E, claro,
Leonor Silveira, monopólio exclusivo do senhor Manoel de Oliveira e que
repete ad eternum o mesmo papel de melancólica e espiritual beleza,
debitando as palavras sábias da senhora Agustina.
As razões para as várias desistências são óbvias: Se o número de películas,
aliado à exiguidade dos cachets pagos, não permite aos actores e actrizes a
dedicação exclusiva, não admira que os mesmos se dispersem pelas telenovelas
e pelos concursos televisivos da chacha, ou decidam que é mais prático fazer
pela vida e dar a cara em anúncios a instituições bancárias.
Seria, pois, muito útil que o cinema nacional se preocupasse seriamente com
os nossos futuros actores e actrizes. No fundo, que se empenhasse (por mais
escandaloso que isto possa soar aos ouvidos dos mais puristas) como a
televisão o faz em encontrar os seus «Ídolos». Se o que se pretende - como
não se cansam de repetir produtores e realizadores - é afirmar as nossas
obras cinematográficas em outros mercados, então já é altura de perceber que
o eventual reconhecimento além fronteiras do autor/realizador não é, por si
só, suficiente para a criação desses públicos. Precisamos de estrelas. De
homens e mulheres que estejam prontos para o seu close-up. Em suma, que
estejam vivos. Porque o contrário de estar vivos, vale a pena repeti-lo, é
estar morto.
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