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Lugar Marcado
por Vasco Gouveia
 
07-08-2003
Estrelas, precisam-se!
 
 
Nada como começar por uma evidência digna do senhor de La Palisse, o tal que dez minutos antes de morrer afirmava, a pés estendidos, que ainda estava vivo. Talvez o nobre francês estivesse presente na dilatada mente da senhora Lili Caneças, conhecida filósofa do nosso social, quando afirmou sabiamente que estar vivo é o contrário de estar morto. Mas será mesmo?
 
 
 

O que tem esta escatológica questão a ver com o cinema em geral e o cinema português em particular?, interrogar-se-á o impaciente leitor desta humilde crónica, ainda pouco habituado aos devaneios do seu autor.

A resposta, expressa na evidência prometida no parágrafo anterior, é esta: O cinema é uma forma de espectáculo. E sendo o espectáculo necessariamente uma coisa viva, sucede que não pode estar morto. Ora, acontece que o cinema português, muitas vezes, se não está defunto parece pelo menos tão morto vivo como as personagens de «Plano 9 dos Vampiros Zombie».

Como qualquer forma de espectáculo, vide o futebol, o automobilismo, o ténis ou, já agora, o golfe, o nosso cinema necessita daquilo a que se convencionou chamar «as estrelas». As estrelas são actores e actrizes com os quais o público se relaciona, são as caras que atraem as audiências com os seus nomes em destacadas letras nos cartazes, são a garantia de uma interpretação não apenas capaz mas brilhante, em cada um dos seus desempenhos. São, em suma, a condição sine qua non da exportação das nossas obras no mercado externo.

Sucede que, em Portugal, não existem estrelas. Ou seja, não existem actores e actrizes de qualidade e de referência exportável. Não temos uma Catherine Deneuve como os franceses, nem um Antonio Banderas como os espanhóis, e nem vale a pena citar nomes ingleses ou norte-americanos. Isto é, não temos estrelas de marca. O que temos são fracassos ou desistências: Um Joaquim de Almeida que preferiu a segurança dos papéis de segunda ordem em Hollywood, as irmãs Medeiros que optaram pelo outro lado da câmara, uma Alexandra Lencastre que só agora parece querer regressar à representação «séria», depois de abdicar em prol do conforto do lar e de esporádicos programas televisivos que já ninguém recorda, ou um Diogo Infante com escassa lucidez na escolha que faz dos papéis que interpreta no grande ecrã. E, claro, Leonor Silveira, monopólio exclusivo do senhor Manoel de Oliveira e que repete ad eternum o mesmo papel de melancólica e espiritual beleza, debitando as palavras sábias da senhora Agustina.

As razões para as várias desistências são óbvias: Se o número de películas, aliado à exiguidade dos cachets pagos, não permite aos actores e actrizes a dedicação exclusiva, não admira que os mesmos se dispersem pelas telenovelas e pelos concursos televisivos da chacha, ou decidam que é mais prático fazer pela vida e dar a cara em anúncios a instituições bancárias.

Seria, pois, muito útil que o cinema nacional se preocupasse seriamente com os nossos futuros actores e actrizes. No fundo, que se empenhasse (por mais escandaloso que isto possa soar aos ouvidos dos mais puristas) como a televisão o faz em encontrar os seus «Ídolos». Se o que se pretende - como não se cansam de repetir produtores e realizadores - é afirmar as nossas obras cinematográficas em outros mercados, então já é altura de perceber que o eventual reconhecimento além fronteiras do autor/realizador não é, por si só, suficiente para a criação desses públicos. Precisamos de estrelas. De homens e mulheres que estejam prontos para o seu close-up. Em suma, que estejam vivos. Porque o contrário de estar vivos, vale a pena repeti-lo, é estar morto.

 

 

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