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Sinopse:
Tudo parece perdido. É então que num velho parque solitário e gelado, duas
sombras se encontram: a de Deus e a de um Enviado de Deus.
O Enviado de Deus dá ao vadio (estado provisório do pobre João de Deus) uma
mala cheia de dinheiro. Missão cumprida, o Enviado vai à vida. Debaixo da
árvore à beira do lago, João conta as pápulas. A água silente do lago é
perturbada pela queda de um corpo. Ouvido o que se passou, vai João ver o
que se passa. A jovem Joana está prestes a afogar-se. João atira-se à água
retira Joana. Ministrados os primeiros e tão prontos socorros, João
transporta a inanimada para um convento de freiras. Que confiança! Que
aventurança!
Volta ao parque para recuperar o dinheiro contido na mala. Felizmente,
aquela hora do dia, os viandantes não viandam.
Rico como Cresus, João regressa ao co um interrogatório. É enclausurado em
regime de prisão preventiva num ailo psiquiátrico que, aliás, conhece
razoavelmente bem. Após uma entrevista com o Director da instituição, um
velho conhecido para quem o seu dossier é familiar, dá-se conta, uma vez
mais, que ninguém acredita na proveniência divina da sua fortuna. De resto,
ele também não...
No espaço arquitectónico circular em que é fechado, julga rever o Enviado de
Deus, mas este não o reconhece ou, o que vem a dar ao mesmo, finge não o
reconhecer. Diz a João de Deus que é o Cristo depois da Ascensão e nega
ter-lhe dado dinheiro.
No tribunal, diante dos juízes, João de Deus comete um acto de desobediência
e declara-se inocente, mau grado os seus pecados. É condenado a uma pena de
cadeia, durante a qual recebe a visita de Joana.
Purgada escrupulosamente a pena, Joana espera João de Deus à saída da
prisão. Partem. Joana anuncia o fim da comédia.
João César Monteiro
Nota de Intenções:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a
confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando
sempre novas qualidades.
Luiz de Camões
Se o percurso dos filmes não fosse sujeito a mundanos e variados acidentes,
o deste teria retomado o seu fôlego reparador no fim de A COMÉDIA DE DEUS e,
encontrado que estava o ritmo e o ânimo para o resto da caminhada (as
excepções são as cenas do psiquiatra e do hospício, filmadas em 1995), tudo
parecia indiciar uma rota segura e o povoamento da terra arável de um sonho
tomado no seu absoluto amoroso, isto é, horrorosamente monogâmico.
Teríamos, por certo, um silogismo nupcial suficientemente solar para ser não
só portador da sua própria incandescência, como para encandear a substância
selénica do filme precedente (A COMÉDIA), esclarecendo-lhe, na sua função de
agente revelador, a alquimia do seu sentido obscuro.
Ora, dado que a história das coisas não só não foi essa, como não foi
moldada em acordo e consonância com o nosso novo desejo, receio bem que, uma
vez mais, nos encontremos confrontados com uma aporia tanto mais perversa
quanto mais delicada.
Não lembra ao diabo fazer um filme que, ainda por cima com alguma ironia,
nos fala repetidamente da impossibilidade do seu propósito, da
impossibilidade da sua razão de ser.
Sossegai-vos, no entanto, ó incrédulos. Pode-se viver com isso, pode-se
viver assim.
E alguns de nós, (poucos, espero), terão de convir que AS BODAS DE DEUS é um
filme delicioso. Noblesse oblige.
João César Monteiro
Festivais:
Festival de Cannes 1999 - Selecção Oficial, Un Certain Regard
Festival de Mar del Plata 1999 - Prémio Ombú d'Oro (Umbezeiro de Ouro) para
Melhor Filme
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