Amor de Perdição
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ficha técnica

Título original:
Branca de Neve

Origem:
Portugal

Duração:
75 min.

Local de Estreia:
2000

Realização
João César Monterio

Produção
Madragoa Filmes
Gemini Films (França)
RTP - Radiotelevisão Portuguesa

Obra Original
Roger Walser

Actores
Luís Miguel Cintra
Diogo Dória
Ana Brandão
Reginaldo da Cruz

Dir. Fotografia
Mário Barroso

Dir. Som
Joaquim Pinto

Misturas
Joaquim Pinto

Música
Gioachino Rossini
Salvatorre Sciarrino
Heinz Holliger

Dir. Produção
Alexandre Oliveira

Produção Executiva
Paulo Branco

Distribuição
Atalanta Filmes

negativo:
35 mm

som:

base de dados
filmes

 

Branca de Neve, de João César Monteiro (Madragoa Filmes)
Longa Metragem; 2000
Branca de Neve
de João César Monterio
 

com    Diogo Dória (Rei), Ana Brandão (Rainha), Reginaldo da Cruz (Príncipe Estrangeiro) e Luís Miguel Cintra (Caçador).

"Branca de Neve", de João César Monteiro (Madragoa Filmes)  

Sinopse:

«O soluço é a melodia da tagarelice walseriana. Revela-nos de onde vêm os seus preferidos. Da loucura, e de mais nenhuma parte. São personagens que atravessaram a loucura e é por isso que permanecem de uma superficialidade tão dilacerante, tão totalmente inumana, imperturbável. Se quisermos designar numa palavra o que têm simultaneamente de engraçado e terrível, podemos dizer: estão todos curados. Claro que não saberemos nunca qual foi o processo dessa cura, a menos que ousemos debruçar-nos sobre a sua Branca de Neve.»

Walter Benjamin

Robert Walser retoma o conto onde Grimm o deixou. As personagens, na mão do poeta, permitem-se tudo, mesmo fazer uma careta à lenda.

Que imprudente ideia, a do príncipe, ter interrompido "Branca de Neve" no melhor dos sonos e, com um beijo que ela negará sempre, retirá-la do caixão de vidro para a restituir à vida, isto é, à carne, e arrogar-se direitos sobre ela.

Neste "dramolote", Walser está ainda mergulhado nos conflitos da infância. Nota-se aqui quando o pai é inexistente. É sempre com a mãe, ou a madrasta, que a heroína se deve confrontar.

Se "Branca de Neve" deseja morrer ou regressar ao país dos seus anões, é porque não está convencida da boa-fé da rainha. A sua madrasta não quis envenená-la? Quando "Branca de Neve", salva pelo príncipe, voltou à vida, a rainha, graças aos seus beijos, não incitou, acto contínuo, o caçador a apunhalá-la?

E eis o príncipe e a jovem, tão pura quanto o seu nome indica, - o qual evoca para nós a morte de Walser na neve - aterrorizados por uma cena bestial entre a rainha e o caçador. O homem está deitado sobre a mulher e as suas atitudes parecem aos dois inocentes uma brutalidade espantosa. O amor será isto? Uma luta encarniçada?

Beijos envenenados, amor e crime intimamente imbricados, é absolutamente imprescindível corrigir o conto de Grimm. A mãe, madrasta, não pode ser tão malvada, seria insuportável. Mas Branca de Neve deve aprender que amor e ódio não estão nunca muito afastados. Ela compreende. Julgava-se - como Robert - "ferida, expulsa, perseguida, odiada". Era apenas tonta e agora tudo acaba em bem. "Branca de Neve escolheu ser feliz. "

Por que preço? O dilema é quase hamletiano: a afirmação da pequenez do sim, implica a renúncia à grandeza do não. Os derradeiros flocos de neve derretem-se ante o triunfo dos raios solares. O mundo social não hospeda o mundo mítico.

Le bonheur n'est pas gai.

Ó noite, coberta pelo teu manto de lua: a neve, a neve ainda?

Marie-Louise Audiberti/João César Monteiro

Observações:

Finalmente, um pouco de electricidade. Apresentada na secção "Novos Territórios" , a adaptação de João César Monteiro, da peça de Robert Walser, "Branca de Neve" é o primeiro abanão do festival. Através de um impressionante curto-circuito de significantes, o autor suiço-alemão, que passou o último terço da sua vida num hospital psiquiátrico, foi encontrar a morte na neve.

É com os clichés do seu despojamento sobre um fundo coberto de neve que começa o filme de Monteiro. Depois destas imagens mudas e brancas, o ecrã torna-se negro, enquanto a banda-sonora nos faz ouvir uma leitura da comédia baseada em Branca de Neve, por actores portugueses. De tempos, a tempos, o filme, volta a respirar, o tempo de um fotograma do céu, depois volta a mergulhar na obscuridade.

Esses gestos iconoclastas não têm nada de gratuitos. Por outro lado, A "Branca de Neve" de Monteiro não reduz a esse gesto. Não é de todo uma obra conceptual, e a passagem ao ecrã negro faz aqui sentido de uma forma muito clássica. Escutar Walser permite convencermo-nos: "Mais do que ver, gostaria de ouvir."

A primeira sedução do filme é precisamente a desta qualidade de causador de perturbação, e não deixa de ser divertido que vinte anos depois do Navire Night de Duras, certas práticas artísticas ainda não tenham sido assimiladas. Temos um vivo prazer nesta tentativa de atenuação do espectáculo para ouvir o texto. Tanto mais que a linguagem magnífica de Walser se tinge de uma sensualidade particular na sua tradução portuguesa.

Além do esplendor literário da peça, o que interessa a Monteiro é, evidentemente o homem Walser. É por isso que ele utiliza as fotografias dos seus despojos na abertura do filme. É nele, no seu destino terrível, que pensamos durante a narrativa onde Branca de Neve, morta e ressuscitada, descobre enfim a paz, o sentido do ódio e do amor, a força do perdão. É preciso portanto morrer para aprender a viver, e o filme experimenta com graça esboçar esse outro-mundo. Em todo o caso, para evocar Walser, Monteiro, passa pela obra.

Libération, Jean-Marc Lalanne

"Arrisquemos hipóteses. A provocação dadaísta, a imprecação epistolar, a estalada no gosto do público. A proximidade espiritual do cineasta e do escritor, sob o signo do humor melancólico, da tentação epicurista, da impossível procura de pureza, e da loucura que ronda. O texto walseriano é admiravelmente dito em português."

Le Monde, Jaques Mandelbaum

"Uma obra-prima de síntese e de provocação às últimas consequências. Assina-a, não por acaso, um génio do cinema contemporâneo como João César Monteiro. Há no trabalho de Monteiro muito do que é hoje em dia reflexão sobre o corpo cinema. Este filme é uma magnífica "lição" de cinema."

Il Manisfesto, Cristina Piccino

"A história é a de uma loucura cônscia, onde as personagens têm rédea solta - até para estrinçar o conto. O Príncipe, presunçosamente, perturba o sono de Branca de Neve para a beijar (algo que ela negará sempre ao longo do entrecho), e, retirando-a do seu caixão de vidro, dá-lhe vida - para lhe poder possuir a carne, entenda-se.

O filme, ensaio encantatório de radicalismo para uns, produto execrando e terminantemente insuportável para outros, é uma estupenda experiência de cinema - mas será verdadeiramente cinema?"

Jornal de Notícias, José Miguel Gaspar

"Dois jornalistas italianos, quando estavam a experimentar o eclipse de Branca de Neve. Um: "É preciso ter coragem". Outro: "Bem, Spielberg não é". "

Público, Vasco Câmara

 

"Pessoalmente, em termos de "Branca de Neve" continuo a preferir a versão de Walt Disney. "

Diário de Notícias, Eurico de Barros

Festivais e Prémios:

Mostra de Veneza 2000 - secção Novos Territórios (não competitiva)

Mostra de São Paulo 2000

Festival de Frankfurt 2000

 

 
Associação para a Promoção do Cinema Português