Sinopse:
«O soluço é a melodia da tagarelice walseriana. Revela-nos de onde vêm os
seus preferidos. Da loucura, e de mais nenhuma parte. São personagens que
atravessaram a loucura e é por isso que permanecem de uma superficialidade
tão dilacerante, tão totalmente inumana, imperturbável. Se quisermos
designar numa palavra o que têm simultaneamente de engraçado e terrível,
podemos dizer: estão todos curados. Claro que não saberemos nunca qual foi o
processo dessa cura, a menos que ousemos debruçar-nos sobre a sua Branca de
Neve.»
Walter Benjamin
Robert Walser retoma o conto onde Grimm o deixou. As personagens, na mão do
poeta, permitem-se tudo, mesmo fazer uma careta à lenda.
Que imprudente ideia, a do príncipe, ter interrompido "Branca de Neve" no
melhor dos sonos e, com um beijo que ela negará sempre, retirá-la do caixão
de vidro para a restituir à vida, isto é, à carne, e arrogar-se direitos
sobre ela.
Neste "dramolote", Walser está ainda mergulhado nos conflitos da infância.
Nota-se aqui quando o pai é inexistente. É sempre com a mãe, ou a madrasta,
que a heroína se deve confrontar.
Se "Branca de Neve" deseja morrer ou regressar ao país dos seus anões, é
porque não está convencida da boa-fé da rainha. A sua madrasta não quis
envenená-la? Quando "Branca de Neve", salva pelo príncipe, voltou à vida, a
rainha, graças aos seus beijos, não incitou, acto contínuo, o caçador a
apunhalá-la?
E eis o príncipe e a jovem, tão pura quanto o seu nome indica, - o qual
evoca para nós a morte de Walser na neve - aterrorizados por uma cena
bestial entre a rainha e o caçador. O homem está deitado sobre a mulher e as
suas atitudes parecem aos dois inocentes uma brutalidade espantosa. O amor
será isto? Uma luta encarniçada?
Beijos envenenados, amor e crime intimamente imbricados, é absolutamente
imprescindível corrigir o conto de Grimm. A mãe, madrasta, não pode ser tão
malvada, seria insuportável. Mas Branca de Neve deve aprender que amor e
ódio não estão nunca muito afastados. Ela compreende. Julgava-se - como
Robert - "ferida, expulsa, perseguida, odiada". Era apenas tonta e agora
tudo acaba em bem. "Branca de Neve escolheu ser feliz. "
Por que preço? O dilema é quase hamletiano: a afirmação da pequenez do sim,
implica a renúncia à grandeza do não. Os derradeiros flocos de neve
derretem-se ante o triunfo dos raios solares. O mundo social não hospeda o
mundo mítico.
Le bonheur n'est pas gai.
Ó noite, coberta pelo teu manto de lua: a neve, a neve ainda?
Marie-Louise Audiberti/João César Monteiro
Observações:
Finalmente, um pouco de electricidade. Apresentada na secção "Novos
Territórios" , a adaptação de João César Monteiro, da peça de Robert Walser,
"Branca de Neve" é o primeiro abanão do festival. Através de um
impressionante curto-circuito de significantes, o autor suiço-alemão, que
passou o último terço da sua vida num hospital psiquiátrico, foi encontrar a
morte na neve.
É com os clichés do seu despojamento sobre um fundo coberto de neve que
começa o filme de Monteiro. Depois destas imagens mudas e brancas, o ecrã
torna-se negro, enquanto a banda-sonora nos faz ouvir uma leitura da comédia
baseada em Branca de Neve, por actores portugueses. De tempos, a tempos, o
filme, volta a respirar, o tempo de um fotograma do céu, depois volta a
mergulhar na obscuridade.
Esses gestos iconoclastas não têm nada de gratuitos. Por outro lado, A
"Branca de Neve" de Monteiro não reduz a esse gesto. Não é de todo uma obra
conceptual, e a passagem ao ecrã negro faz aqui sentido de uma forma muito
clássica. Escutar Walser permite convencermo-nos: "Mais do que ver, gostaria
de ouvir."
A primeira sedução do filme é precisamente a desta qualidade de causador de
perturbação, e não deixa de ser divertido que vinte anos depois do Navire
Night de Duras, certas práticas artísticas ainda não tenham sido
assimiladas. Temos um vivo prazer nesta tentativa de atenuação do
espectáculo para ouvir o texto. Tanto mais que a linguagem magnífica de
Walser se tinge de uma sensualidade particular na sua tradução portuguesa.
Além do esplendor literário da peça, o que interessa a Monteiro é,
evidentemente o homem Walser. É por isso que ele utiliza as fotografias dos
seus despojos na abertura do filme. É nele, no seu destino terrível, que
pensamos durante a narrativa onde Branca de Neve, morta e ressuscitada,
descobre enfim a paz, o sentido do ódio e do amor, a força do perdão. É
preciso portanto morrer para aprender a viver, e o filme experimenta com
graça esboçar esse outro-mundo. Em todo o caso, para evocar Walser,
Monteiro, passa pela obra.
Libération, Jean-Marc Lalanne
"Arrisquemos hipóteses. A provocação dadaísta, a imprecação epistolar, a
estalada no gosto do público. A proximidade espiritual do cineasta e do
escritor, sob o signo do humor melancólico, da tentação epicurista, da
impossível procura de pureza, e da loucura que ronda. O texto walseriano é
admiravelmente dito em português."
Le Monde, Jaques Mandelbaum
"Uma obra-prima de síntese e de provocação às últimas consequências.
Assina-a, não por acaso, um génio do cinema contemporâneo como João César
Monteiro. Há no trabalho de Monteiro muito do que é hoje em dia reflexão
sobre o corpo cinema. Este filme é uma magnífica "lição" de cinema."
Il Manisfesto, Cristina Piccino
"A história é a de uma loucura cônscia, onde as personagens têm rédea solta
- até para estrinçar o conto. O Príncipe, presunçosamente, perturba o sono
de Branca de Neve para a beijar (algo que ela negará sempre ao longo do
entrecho), e, retirando-a do seu caixão de vidro, dá-lhe vida - para lhe
poder possuir a carne, entenda-se.
O filme, ensaio encantatório de radicalismo para uns, produto execrando e
terminantemente insuportável para outros, é uma estupenda experiência de
cinema - mas será verdadeiramente cinema?"
Jornal de Notícias, José Miguel Gaspar
"Dois jornalistas italianos, quando estavam a experimentar o eclipse de
Branca de Neve. Um: "É preciso ter coragem". Outro: "Bem, Spielberg não é". "
Público, Vasco Câmara
"Pessoalmente, em termos de "Branca de Neve" continuo a preferir a versão de
Walt Disney. "
Diário de Notícias, Eurico de Barros
Festivais e Prémios:
Mostra de Veneza 2000 - secção Novos Territórios (não competitiva)
Mostra de São Paulo 2000
Festival de Frankfurt 2000
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