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ficha técnica

Título original:
Vale Abraão

Origem:
Portugal, França, Suiça

Duração:
187 min. (versão integral 203 min.)

Local de Estreia:

Realização
Manoel de Oliveira

Produção
Light Night Films (Suiça)
Madragoa Filmes
Gemini Films (França)

Obra Original
Agustina Bessa-Luís

Argumento
Manoel de Oliveira

Diálogos
Manoel de Oliveira

Actores
Luís Miguel Cintra
José Pinto
Isabel Ruth
Leonor Silveira
Diogo Dória
Ruy de Carvalho
João Perry
Filipe Cochofel
Luís Lima Barreto
António Reis
Cecile Sanz Alba
Micheline Larpin
Glória de Matos

Dir. Fotografia
Mário Barroso

Montagem
Manoel de Oliveira
Valérie Loiseleux

Decoração
Maria José Branco

Dir. Som
Henri Maikoff

Produção Executiva
Paulo Branco

Lab. Imagem
Tóbis Portuguesa

Financiamento
Eurimages
IPC - Instituto Português de Cinema
Secretaria de Estado da Cultura
Canal +
CNC - Centre Nationale de la Cinématographie
Fundação Calouste Gulbenkian
Office Federal de la Culture (Suiça)
TSR (Suiça)

negativo:
35 mm

som:

base de dados
filmes

 

Vale Abraão, de Manoel de Oliveira (Col. Cinemateca Portuguesa)
Longa Metragem; 1993
Vale Abraão
de Manoel de Oliveira
 

com    Leonor Silveira (Ema), Cecile Sanz Alba (Jovem Ema), Luís Miguel Cintra (Carlos de Paiva), Ruy de Carvalho (Paulino Cardeano), Luís Lima, Barreto (Pedro Lumiares), Micheline Larpin (Simona) e Diogo Dória (Fernando Osório)

"Vale Abraão", de Manoel de Oliveira (Col. Cinemateca Portuguesa)  

Sinopse: Vale Abraão é a história de Ema, uma mulher de uma beleza ameaçadora.
Para Carlos, o marido com quem casou sem amor, "um rosto como o seu pode justificar a vida de um homem".
O seu gosto pelo luxo, as ilusões que tem na vida, o desejo que inspira aos homens, fazem-lhe valer o epíteto de "A Bovarinha".
Conhecerá três amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um sentimento crescente de desilusão que a leva a definir-se como nada mais que "um estado de alma em balouço".

Razão pela qual foi reduzida a versão integral do "Vale Abraão"

A versão integral deste filme foi posteriormente encurtada por circunstâncias exteras por entender que eram de facto necessárias para uma compreensão, não da história propriamente dita, mas para uma melhor definição das personagens, em especial do Carlos, para o conhecimento da sua primeira mulher, que se não vê na versão encurtada, e para um melhor entendimento do ambiente social que envolve os personagens e onde se desenrola o drama.

Manoel de Oliveira, Dezembro de 1998

Sobre o Filme

Os Fantasmas de Ema

Oliveira inspira-se na história famosa de uma heroína que já entrou no imaginário romântico, mas utiliza-a como um verdadeiro conhecedor, de tal forma que se torna possível improvisar e assim criar o novo a partir do conhecido. Como essa musiquinha que todos temos na cabeça, A Sonata ao Luar de Beethoven, que literalmente acompanha Ema e à qual respondem outros "luares" para outras personagens. Se este filme com acentos musicais e de formas profundamente femininas contém em si todas as gradações de um sentimento erótico, isso deve-se, acima de tudo, ao facto de Oliveira permanecer obstinadamente um cineasta lírico.(...)

A grandeza do lírico está em que na base da imagem precisa sempre do texto escrito com o qual pode em seguida compor à sua vontade, è um filme concebido como uma música de partitura, mas a partir do libreto.(...)

Contra todas as ideias feitas, em vez de nos convidar para uma educação sentimental, Manoel de Oliveira apela a um cinema de sensações, mais que à sedução de um cinema de sentimentos. Em Vale Abraão, não há senão cores (todas as da natureza), sons (todos os do mundo), cheiros (como os cigarros que Ema aspira), música, gestos, formas, deslocamentos. Como o quarto arranjado por Maria do Loreto, mulher letrada, para que o marido possa receber as amantes com todo o conforto, também o filme acolhe o reino dos sentidos. Para que a sensualidade do espaço se anime num movimento erótico, Oliveira filma, ultrapassando claramente o mero dispositivo teatral, "as entradas e as saídas"... O movimento secreto e perpétuo, a relação sexual que passa da vida à morte, do momento em que se entra ao momento em que se sai. Vale Abraão poder-se-ia resumir a uma sucessão de entradas em cena, onde se fazem apresentações, como acontece com as três criadas na cozinha, e de saídas de cena. como o último e grave olhar que nos dirige a velha tia ao fazer o sinal da cruz, e de chegadas e de partidas (vejam-se as viagens repetidas de Ema ao Vesúvio ou o extraordinário plano da partida da muda Fitinha com a trouxa na cabeça), de idas e regressos amorosos, de idas e vindas em casas burguesas. Em Oliveira, qualquer "entrada no plano" ultrapassa a alusão técnica e torna-se actividade física: veja-se o momento da chegada ao baile de Ema, que marca a sua entrada no mundo, soberbamente sublinhada pela forma como ela "faz a sua entrada", primeiro em plano de fundo que segue o instante de hesitação antes de entrar no salão...

As múltiplas personagens de Vale Abraão estão sempre entre duas portas, ou na ombreira da porta, diante de uma janela aberta, no meio de uma refeição, no centro de

uma discussão, em frente do espelho, etc. Ema é o corpo feminino do entre-dois, entre dois amantes, entre dois locais, entre a vida sonhada e a realidade da sua existência. É isso que lhe dá aquele ar inatingível, entre a vida e a morte. Este movimento inscreve-se por inteiro e com muito humor desde o início, quando ela caminha desde a casa paterna até ao fim do jardim que dá para uma curva da estrada em baixo e de onde ela pode enfim deslumbrar com a sua beleza os automobilistas que passam, de tal forma que há acidentes graves e "mesmo mortes"... Mas a sociedade dos homens velará para que tudo entre na ordem. E é a esta ordem, a própria negação da vida (e da morte) que Ema quer escapar, sem de todo o conseguir. (...)

Sem a mínima perversidade mas com a máxima perturbação, o filme de Manoel de Oliveira é colocado, do princípio ao fim, sob o signo do feminino, de um olhar feminino pousado sobre o mundo, o olhar de um cineasta que abarca literalmente o movimento erótico infinito do tempo no espaço. E não se julgue que esta é uma história de um tempo antigo que veio visitar o espaço do presente, que este é um cinema que dá vida e realidade a fantasmas.

Vale Abraão, de Manoel de Oliveira, é um dos mais belos filmes do mundo.

Camille Nevers, Cahiers du Cinema n.º 469, Junho de 1993

Festivais e Prémios

1993

Festival de Cannes - Quinzena dos Realizadores - Menção Especial - Prémio CICAE
Festival de Cinema de Nova Iorque
Festival de Berlin
Filmfest München
Festival de Valencia
Festival de Cinema de Telluride (EUA)
Festival de Toronto (Canadá)
Festival Internacional de Cinema de Vancouver (Canadá)
Festival Internacional de Cinema de Porto Rico
Mostra de São Paulo - Prémio da Crítica
Festival Internacional de Cinema de Thessaloniki (Grécia) - Novos Horizontes
Festival de Tóquio - Prémio Melhor Contribuição Artística
Taormina Arte - Rassegna Internazionale di Cinema (Itália)
Festival de Cinema de Genebra (Suíça)
Festival Internacional de Cinema Fantàstic de Sitges (Espanha)
Festival de Cinema de Londres
V'iennale, Internationale Filmfestwochen Wien (Áustria)
Festival dos Filmes do Mundo - Montréal
Festival de Valladolid
Festival de Cancún - Jaguar de Ouro para o Melhor Filme

 

 
Associação para a Promoção do Cinema Português