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ficha técnica

Título original:
Os Verdes Anos

Origem:
Portugal

Duração:
91 min.

Local de Estreia:
Cine-Teatro São Luiz (Lisboa) - 29 Novembro 1963

Realização
Paulo Rocha

Produção
Produções Cunha Telles

Argumento
Nuno Bragança

Diálogos
Paulo Rocha

Assist. Realização
Fernando Matos Silva
António Vilela
Olavo Rasquinho

Actores
Ruy Furtado
Isabel Ruth
Rui Gomes
Paulo Renato
Cândida Dyne
Harry Weeland

Dir. Fotografia
Luc Mirot

Imagem
Elso Roque

Montagem
Margharethe Mangs

Dir. Som
Heliodoro Pires

Música
Carlos Paredes

Produtor
António da Cunha Telles

Lab. Imagem
Ulyssea Filme

Distribuição
Vitória Filme

negativo:

som:

base de dados
filmes

 

Rui Gomes e Isabel Ruth em Os Verdes Anos, de Paulo Rocha. (Col. Cinemateca Portuguesa)
Longa Metragem; 1963
Os Verdes Anos
de Paulo Rocha
 

com    Isabel Ruth (Ilda), Rui Gomes (Júlio), Paulo Renato (Afonso) e Cândida Dyne (prima)

Rui Gomes e Isabel Ruth em "Os Verdes Anos", de Paulo Rocha. (Col. Cinemateca Portuguesa)  

Sinopse:

Júlio, de dezanove anos, vem da província para Lisboa, tentar a sorte como sapateiro. No dia da chegada, um incidente leva-o a conhecer Ilda, jovem da mesma idade, empregada doméstica em casa próxima da oficina onde Júlio trabalha.

Júlio sente-se num ambiente estranho e hostil, desenrolando-se uma série de peripécias que lhe despertam a desconfiança em relação a Ilda, que decide romper o namoro. Impulsivo, Júlio acaba por matá-la.

Festivais

Festival de Locarno 1964 (Suiça) - Pémio Vela de Prata / Opera Prima
Festival de Acapulco 1965 (México) - Prémio Cabeza de Palenque
Festival de Valladolid 1965 (Espanha) - Menção Honrosa

Observações

"Os Verdes Anos é o primeiro filme das produções Cunha Telles que, pode dizer-se, começavam com o pé direito: o filme seria premiado em Locarno, o nome de Paulo Rocha surgia nas principais revistas de cinema europeias como uma revelação.

Visto hoje, Os Verdes Anos têm o grande mérito de ser um documento precioso sobre Lisboa do príncipio dos anos 60, o seu provincianismo, o desespero e a sufocação de uma geração jovem. Para o cinema, o filme revelava ainda a sensibilidade de um compositor (Carlos Paredes) que construiu um tema musical que ficaria célebre (...).

Pela primeira vez depois de muitos anos este filme sintonizava-se com a realidade portuguesa, espelhava-a. Era um vento de mudança no cinema que por cá se fazia. Mas a mudança não estava só na respitação temática. Acontecia também (...) na respiração fílmica, na atenção aos movimentos de câmara, à realidade plástica dos planos, aos tempos.

Mais de vinte anos depois, Os Verdes Anos, não ganharam cãs, sabemo-lo... O que quer dizer que o Cinema Novo que nele se propunha o era, de facto."

Jorge Leitão Ramos, in Dicionário do Cinema Português 1962-1988, ed. Caminho, Lisboa, 1989

"Verdes Anos é uma obra de mocidade, um filme confessional, contado com pudor, como que a pedir desculpa, o choque entre a aldeia pura e a cidade corrupta, ou, se quisermos, o choque entre o fim da adolescência e a entrada no tempo adulto.

Mas Paulo Rocha soube evitar a retórica e servir-se de uma história muito simples (...), retirando-lhe o melodrama e a retórica através da singeleza, da naturalidade, da sinceridade, do estado de graça dos jovens actores, mas insinuando-lhe o sangue e a morte por debaixo da ilusâo de um real agradável, descontraído, quotidiano.

Rodado numa zona mítica do novo cinema português - a zona em torno do Café-Restaurante Vává, no rés-de-chão do prédio onde vivia o realizador, com a sua população e os seus hábitos bem aos anos 60 -, Verdes Anos, é contado num cinema límpido, directo, como as melhores coisas da nouvelle vague (ou de Olmi...), em que a imagem domina sempre o diálogo, aqui coloquial e autêntico, escrito por Nuno Bragança (os versos da lindíssima canção-tema de Carlos Paredes - outro nome-símbolo do novo cinema - são de Pedro Tamen, colaborador activo do Centro Cultural de Cinema, a que Paulo Rocha está muito ligado), uma imagem devida ao francês Luc Mirot (o operador foi Elso Roque) e trabalhada no laboratório da Ulyssea Filme, do Engº José Gil, que terá participação de relevo no auxílio técnico à jovem produção portuguesa como já acontecera com Dom Roberto ."

Luís de Pina, in História do Cinema Português, ed. Europa-América, col. Saber, 1986

"Verdes Anos foi uma produção de Cunha Telles. Este iniciara a sua actividade com a co-produção do filme de Pierre Kast, Vacances Portugaises que em 1962 trouxe a Lisboa actores como Catherine Deneuve e Françoise Arnoul ou técnicos como Coutard. Com eles, trabalharam técnicos portugueses do curso de Telles (Estúdio Universitário de Cinema Experimental, da Mocidade Portuguesa). Assim, em torno deste, se foi formando uma equipa que, de realizadores a actores, de concepções de produção a concepções de argumento, marcou finalmente o tão falado corte. Independentemente dos respectivos méritos, é essa a atitude que atravessa as obras de Paulo Rocha, Fernando Lopes e António de Macedo, estreadas em 63, 64 e 66: Os Verdes Anos, Belarmino e Domingo á Tarde.

Paulo Rocha era, por essa altura, relativamente marginal a quaisquer grupos. Estivera, é certo, por esses anos, perto de alguns dos universitários católicos que mais inovaram em matéria de gostos críticos, mas nunca teve nessas estruturas papel de evidência. Depois, vagueara pela França, com uma bolsa do IDHEC e estagiara com Renoir em Le Caporal Epinglé. Ao voltar, em 1962, trabalhou com Oliveira no Acto da Primavera e na Caça. Quando se decidiu passar à realização, foi buscar a esse grupo de católicos dois dos mais relevantes colaboradores: Nuno Bragança (1929-1985) que viria a ser um dos expoentes da nova literatura portuguesa dos anos 60 e 70 e o poeta Pedro Tamen (1934). O primeiro adaptou o argumento e escreveu os diálogos; o segundo foi autor da letra da canção leimotiv do filme, musicada por Carlos Paredes (...).

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, Sória do cinema português. Por um lado, faz a ponte entre um imaginário visual que o nosso cinema quase sempre havia ignorado e um imaginário específico dos nossos melhores filmes. Ou seja, é o primeiro filme a articular coerente e cultivadamente o fundo visual e romanesco que se insinuara nalgumas das nossas obras clássicas. Por outro lado, dá as chaves das figuras de retórica possíveis na evolução futura desse imaginário, o que faz de quase todos os melhores filmes posteriores seus herdeiros.

Ainda, Verdes Anos, é o filme que melhor dá a ver Lisboa e Portugal como espaços de frustração, espaços claustrofóbicos, sem saídas, onde tudo se frustra e tudo agoniza numa morte branda."

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa

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Associação para a Promoção do Cinema Português