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Sinopse:
Júlio, de dezanove anos, vem da província para Lisboa, tentar a sorte como
sapateiro. No dia da chegada, um incidente leva-o a conhecer Ilda, jovem da
mesma idade, empregada doméstica em casa próxima da oficina onde Júlio
trabalha.
Júlio sente-se num ambiente estranho e hostil, desenrolando-se uma série de
peripécias que lhe despertam a desconfiança em relação a Ilda, que decide
romper o namoro. Impulsivo, Júlio acaba por matá-la.
Festivais
Festival de Locarno 1964 (Suiça) - Pémio Vela de Prata / Opera Prima
Festival de Acapulco 1965 (México) - Prémio Cabeza de Palenque
Festival de Valladolid 1965 (Espanha) - Menção Honrosa
Observações
"Os Verdes Anos é o primeiro filme das produções Cunha Telles que, pode
dizer-se, começavam com o pé direito: o filme seria premiado em Locarno, o
nome de Paulo Rocha surgia nas principais revistas de cinema europeias como
uma revelação.
Visto hoje, Os Verdes Anos têm o grande mérito de ser um documento precioso
sobre Lisboa do príncipio dos anos 60, o seu provincianismo, o desespero e a
sufocação de uma geração jovem. Para o cinema, o filme revelava ainda a
sensibilidade de um compositor (Carlos Paredes) que construiu um tema
musical que ficaria célebre (...).
Pela primeira vez depois de muitos anos este filme sintonizava-se com a
realidade portuguesa, espelhava-a. Era um vento de mudança no cinema que por
cá se fazia. Mas a mudança não estava só na respitação temática. Acontecia
também (...) na respiração fílmica, na atenção aos movimentos de câmara, à
realidade plástica dos planos, aos tempos.
Mais de vinte anos depois, Os Verdes Anos, não ganharam cãs, sabemo-lo... O
que quer dizer que o Cinema Novo que nele se propunha o era, de facto."
Jorge Leitão Ramos, in Dicionário do Cinema Português 1962-1988, ed.
Caminho, Lisboa, 1989
"Verdes Anos é uma obra de mocidade, um filme confessional, contado com
pudor, como que a pedir desculpa, o choque entre a aldeia pura e a cidade
corrupta, ou, se quisermos, o choque entre o fim da adolescência e a entrada
no tempo adulto.
Mas Paulo Rocha soube evitar a retórica e servir-se de uma história muito
simples (...), retirando-lhe o melodrama e a retórica através da singeleza,
da naturalidade, da sinceridade, do estado de graça dos jovens actores, mas
insinuando-lhe o sangue e a morte por debaixo da ilusâo de um real
agradável, descontraído, quotidiano.
Rodado numa zona mítica do novo cinema português - a zona em torno do
Café-Restaurante Vává, no rés-de-chão do prédio onde vivia o realizador, com
a sua população e os seus hábitos bem aos anos 60 -, Verdes Anos, é contado
num cinema límpido, directo, como as melhores coisas da nouvelle vague (ou
de Olmi...), em que a imagem domina sempre o diálogo, aqui coloquial e
autêntico, escrito por Nuno Bragança (os versos da lindíssima canção-tema de
Carlos Paredes - outro nome-símbolo do novo cinema - são de Pedro Tamen,
colaborador activo do Centro Cultural de Cinema, a que Paulo Rocha está
muito ligado), uma imagem devida ao francês Luc Mirot (o operador foi Elso
Roque) e trabalhada no laboratório da Ulyssea Filme, do Engº José Gil, que
terá participação de relevo no auxílio técnico à jovem produção portuguesa
como já acontecera com Dom Roberto
."
Luís de Pina, in História do Cinema Português, ed. Europa-América, col.
Saber, 1986
"Verdes Anos foi uma produção de Cunha Telles. Este iniciara a sua
actividade com a co-produção do filme de Pierre Kast, Vacances Portugaises
que em 1962 trouxe a Lisboa actores como Catherine Deneuve e Françoise
Arnoul ou técnicos como Coutard. Com eles, trabalharam técnicos portugueses
do curso de Telles (Estúdio Universitário de Cinema Experimental, da
Mocidade Portuguesa). Assim, em torno deste, se foi formando uma equipa que,
de realizadores a actores, de concepções de produção a concepções de
argumento, marcou finalmente o tão falado corte. Independentemente dos
respectivos méritos, é essa a atitude que atravessa as obras de Paulo Rocha,
Fernando Lopes e António de Macedo, estreadas em 63, 64 e 66: Os Verdes
Anos, Belarmino e
Domingo á Tarde.
Paulo Rocha era, por essa altura, relativamente marginal a quaisquer grupos.
Estivera, é certo, por esses anos, perto de alguns dos universitários
católicos que mais inovaram em matéria de gostos críticos, mas nunca teve
nessas estruturas papel de evidência. Depois, vagueara pela França, com uma
bolsa do IDHEC e estagiara com Renoir em Le Caporal Epinglé. Ao voltar, em
1962, trabalhou com Oliveira no Acto da Primavera e na Caça. Quando se
decidiu passar à realização, foi buscar a esse grupo de católicos dois dos
mais relevantes colaboradores: Nuno Bragança (1929-1985) que viria a ser um
dos expoentes da nova literatura portuguesa dos anos 60 e 70 e o poeta Pedro
Tamen (1934). O primeiro adaptou o argumento e escreveu os diálogos; o
segundo foi autor da letra da canção leimotiv do filme, musicada por Carlos
Paredes (...).
João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, Sória do cinema português. Por
um lado, faz a ponte entre um imaginário visual que o nosso cinema quase
sempre havia ignorado e um imaginário específico dos nossos melhores filmes.
Ou seja, é o primeiro filme a articular coerente e cultivadamente o fundo
visual e romanesco que se insinuara nalgumas das nossas obras clássicas. Por
outro lado, dá as chaves das figuras de retórica possíveis na evolução
futura desse imaginário, o que faz de quase todos os melhores filmes
posteriores seus herdeiros.
Ainda, Verdes Anos, é o filme que melhor dá a ver Lisboa e Portugal como
espaços de frustração, espaços claustrofóbicos, sem saídas, onde tudo se
frustra e tudo agoniza numa morte branda."
João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, Sínteses da Cultura
Portuguesa, Europália 91, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa
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