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Estávamos mais do que preparados para suspender a descrença durante duas
horas e pular a pés juntos para dentro do universo dos jogos de consola
tornados película e admirarmos os contorcionismos e os seios digitalmente
aumentados de Angelina Jolie. Mas havia uma coisa para a qual nada nos
preparara. E essa coisa foi o som, a fúria, os dementes décibeis que
atordoaram os nossos ouvidos com a tonitruante pujança dos canhões da guerra
de 14-18 ou, mais contemporâneos, os mísseis Tomahawk das guerras do Golfo.
Era demais. A criança, apesar de tudo habituada ao cacofónico estrilhar de
guitarras trash-metal, tapou os ouvidos durante dois terços do filme e,
mesmo assim, saiu de lá seriamente candidata a uma consulta de otorrino. Eu,
por outro lado, sentia estarrecido o aumento da minha pulsação e o corpo a
vibrar como uma personagem do «ER» com o George Clooney. Por momentos,
apeteceu-me mesmo procurar a campainha e chamar a enfermeira, antes que
fosse tarde demais e a alma se separasse do corpo num esforço derradeiro de
sobrevivência.
Cá fora, apreciando o silêncio das centenas de criancinhas debicando Happy
Meals e fatias de pizza, pensei no que acontecera. O que levara as salas de
cinema a superarem o nível sonoro de um concerto dos Sepultura? Por que
obscura e satânica razão tinham os responsáveis das salas optado por reduzir
os espectadores a cobaias de experiências acústicas limite? Pretenderiam
eles que os filmes fossem ouvidos do espaço e atraissem assim novos públicos
desde o segundo anel de Saturno?
A resposta surgiu-me mais tarde, após duas semanas de recuperação nas termas
do Buçaco, com a clareza de uma epifania: Afinal, as clamorosos ondas de
choque sonoras eram a resposta natural ao chinfrim do próprio público. Às
conveue não padeçam de
surdez crónica.
Todos nós já tentámos certamente fazer calar algum destes exemplares com
este tipo de comportamento e desistimos. Quando conseguimos, foi com certeza
numa das raras vezes em que o dito cujo (são normalmente homens, vá-se lá
saber porquê) estava sózinho e era mais franzino do que nós. Em geral, este
tipo de gente anda em manadas e tem a compleição de um condutor de máquinas
pesadas. E, entre o ruído boçal e o silêncio eterno da campa, é natural que
optemos pelo primeiro.
Mas, pese embora compreender agora a estratégia dos exibidores, continuo a
achar que há limites. Devem existir outras formas de educação da plateia
para além de destruir-lhes os tímpanos. Quando se leva uma criança de dez
anos a desejar abandonar a sala, com medo que o texto lhe caia em cima da
cabeça como os conhecidos gauleses, algo está errado. Aqui fica, pois, o
apelo. Ou, pelo menos, o aviso. Para a próxima vez que derem por vós com
vontade de apreciar um qualquer blockbuster, levem tampões de ouvidos.
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